[I]
Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as horas da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos remansosos e os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas caem do bronze, lento e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas sejam ou benignas, leva-as o rio para o mar profundo, na sua imensidade vão perder-se.
[II]
Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu peito, quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na alegria, e todas elas as levassem celeres, na candidez das águas baptizando-as, a perder-se, Senhor, na imensidade da bondade infinita do teu seio!{114}{115}
[ÁGUAS VIÚVAS]
[I]
Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal adusto e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem e queimam.
Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, encontraram a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. Depois, como cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho apertado no sombrio vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos sentiram a liberdade das campinas que amorosas quisessem e se exaltassem em seu fecundante afago. Por fim, engolfando-se em mares insaciáveis, estéril se dissipa para sempre esse anseio de amor que prometia a rosa e o trigal e a sombra viridente e que, infeliz, nasceu só para sofrer, por negra sorte cedo condenado a jamais se expandir{116} em formosura e nunca amassar o pão que mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes junto ao mar beijaram o pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e soberbas, e eis que o mar as vem beber e logo as lança nas suas profundezas insondáveis.
Foi seu destino serem infecundas!