«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu folgar».

E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse{117} os germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...

E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo, nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio benfazejo nas profundezas da desilusão.

Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:

«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses bens?!...»

[III]

Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade padece nesta vida{118} quando à sua voz só responde a dureza das paixões e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda de espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras! Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, saiba ao menos amar a desventura!{119}

[PUREZA AMARGA]

[I]

A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do monte e do rebanho.