E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.
E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.
Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas{120} quanta doçura tinha no seu cálice—como se por vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua amargura.
[II]
Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se por ela pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia pureza que se gera da neve cristalina da montanha.{121}
[TIRANIA DO FOGO]
[I]
Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas hastes.
A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por escrava{122} toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal dos nossos olhos—são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as inflamou.