Ou fôsse desengano ou fôsse esperança de ventura maior que essa, mesquinha, que sendo ouro é pó e em pó se volve, sentindo-me indigente me apartei da rijida frieza dos palácios, peregrino votado a incerta estrada. E vim aos casais pobres, a pedir-lhes esmola de consolo e fortaleza, toda a luz da alma e o calor de afectos e o louvor de Deus que a soberba baniu, na ignorância do seu alto poder; vim pedir-lhes a firmeza e coragem, que no orgulho andam pervertidas, e o trabalho e a fé que são brazão, altar e epopeia dêsses tugurios razos como o zimbro em que o teto mal cobre, a custo abrange, uma enxada e o berço e o coração, doirando só de amor e de fadiga um lar estreito, a rudeza das pedras mal unidas e os colmos negros que as revestiram.

É grande e altivo o cedro e é magestoso na opulencia profunda das suas frondes; e é pequenino o musgo que se arrasta no recato obscuro da sua sombra. Mas vestiu luto e tristeza o cedro alto e um severo desdem da sorte alheia; e só sonhou doçura o musgo humilde, não houve mansidão que o não beijasse, não houve esplendor que o não cobrisse. E o vendaval partiu o cedro robusto e sem vida o prostrou para desfazer-se; e o musgo não sentiu a tempestade, sorriu à violência quando o açoita como sorriu ao sol quando o alentava.

Seja o palácio como o cedro alto! Seja a cabana como o musgo humilde!…

Ah! Fôsse eu o senhor do meu destino e da minha fraqueza me remisse, soubesse eu servir meu coração para que o seu anseio consumasse, e eu iria prendê-lo na choupana, onde a suma beleza e o sumo bem, seus tesouros e luz e os seus coros, são os seios que dão vida amamentando e os braços que dão o pão cavando a terra!

XIX

A ave chora e geme enlouquecida derramando a tristeza na floresta.
Desnaturada mão lhe roubou os filhos para os votar à morte na tortura.

Em vão soltou a ave o seu clamor da materna agonia enternecida. Em vão chamou, dorida, anciosamente, por quem responda e queira ao seu amor, sedento, insaciavel de outro amor que agora não encontra e experimentou em freimas e fadigas e carinhos de afortunados dias prolongados!…

Já desmaia o poente e, descorado, deixa crescer a noite e se abandona a todo o seu império. Sentiu-a aproximar-se a ave infeliz. Redobra e é mais aguda e mais a oprime a lacrimosa mágoa em que se perde.

É noite; é noite!… É a escuridão e o frio e o desamparo. Que peito o seu amor vai proteger?… Por quem há-de correr todo o seu sangue?… Quem virá receber-lhe o seu alento?… Que boca o seu calor há-de aquecer?… Para que a vida senão para dar a vida?… Para que, senão para a dar só por amor?!…

Ao fim, na solidão como contricta de tamanho sofrer em que comunga, ao gemido da ave respondeu a dôr, a companheira que encontrou em seu tépido ninho onde afagára os sonhos de ventura malfadados.