De cada mágoa me levanta e ergue, suave e doce e caridosamente, o despontar da estrela da alegria, visões que vem dos céus a iluminá-los. Em toda a queda me protege e ampára um eterno poder de fortaleza que me afoita e me manda caminhar. Onde vem desenganos desfazer desditosas venturas que findáram, o seu cutelo é aquela dôr sagrada que em um só golpe dá a morte e nos reanima, que ao mesmo tempo é pena e é a indulgência, que da própria amargura tira alentos para impôr a servidão de nova esperança. Onde, inclemente, o desengano ferindo-me me terminou enlevos e encantos que uma súbita treva escureceu, aí mesmo me mandou o seu socorro, seus anjos bons que acendem nova luz para me guiar na estrada e transportar-me aos reinos em que a esperança é a salvação.

Sem condições, rendi-me ao desengano. Divino portador de muitos bens, já não o temo se vem ao meu encontro, pois nunca me mentiu e, se me punge, é para dar o meu sangue a nova esperança, e nessa esperança me alongar a vida, e alongando-me a vida me ensinar o amor do Senhor de que êle é escravo.

XVII

Adormeci na escuridão da noite—cobria-me o luar quando acordei. Na tréva se esvaíu a consciência—restituiu-ma a luz vinda dos céus!

A fadiga do dia, as canseiras e penas que atormentam a vida descontente porque o mundo lhe combate e lhe oprime a aspiração; os sonhos de bondade malfadados, ruíndade que escarnece da doçura, astúcia que injuría a candidez, desamôr que responde ao bemquerer, ostentação preterindo a singeleza, a jactância suprindo a descrição, a pureza entre lagrimas traída, a pobreza arrastada em seus andrajos e a mentira orgulhosa em seus fulgores; perversão, crueldade, a fome e o ódio disputando os retalhos miserandos da riqueza mortal que a terra dá e à qual chamam os seus bens êsses escravos que outros bens da alma nem sequer suspeitam, no mesmo trilho em que a cubiça os leva—todo êste amargor que o passar de cada hora nos distila, o dorido bater do coração que em calvário de amor verte o seu sangue, êsse era meu algoz e companheiro quando a noite desceu e se cerrou. Assim me adormeceu imerso em mágoa, e assim eu confiei meu desalento à treva e à inconsciência, sem outra esperança que não fosse aquela de mais sofrer ainda e despertar mais forte para o sentir e para o servir, para mais longe arrastar a minha cruz.

Quando acordei, porêm, sorria a terra no vestalino alvôr que era o seu véu.

E disse-me a brancura do luar:

—«Emquanto, exausto, tu adormeceste e abrandaste na treva o padecer, Alguem, Consolador, velou por ti, convertendo na luz a escuridão. Alguem te transformou em claridade a negrura do mundo e a do teu peito. Se a treva te prendeu e por fraqueza te rendeste ao martírio da tristeza, que só te mortifica porque foste infiel, feriste o Senhor, renasce para a humildade e para a bondade, acorda e vê que a luz jámais fenece e sempre vem remir-te, para que a louves, em teu ser e nos céus, onde a encontrares purificando a terra e o coração.

XVIII

Pelos degraus de marmore subi à morada dos grandes que se abrigam sob tetos dourados, arrastando os enfadados ócios da riqueza. Benignamente me acolheu o seu fausto; e generosos, senão indiferentes, repartiram comigo os seus banquetes onde o destino os apartou do vulgo, para afagar-lhes volupias caprichosas que o tédio implacavel lhes segreda. Do seu esplendor tambêm fui escravo; tambêm me deslumbrou, tambêm o quiz e entre surpreza e espanto o experimentei, na embriaguês daquela estranha e pérfida beleza que no luxo se acoita e nêle oculta, sob um manto divino e formosura, em purpura e no jaspe e na ametista, uma traição cruel de outra beleza—da infinita beleza que é singéla e humilde e é castidade, que é a isenção sem temor e é a caridade, que é a alegria em Deus e na pobreza, que confiou á terra o seu sustento, que é eterna, que não mente e não desmaia, e nos dá a vida e para sempre afasta a morte, porque o Senhor a mandou e a abençoou.