Que é dessa alvura que vestia a terra? Que é da brancura que a purificava?!…

Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros desmaiassem timidos e um estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta brandura e calma ela derrama. É que uma nuvem perpassou errante e etereamente se esvaiu e perde.

Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida, estranho ser que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas deixa com igual desamor e igual capricho, imagem fugidia de um efemero delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o podêr mais ardente das estrelas e pode te-lo turvado, escurecido e humilhado.

Ai de mim, ai de mim!… Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-me os sonhos toda a luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da ventura, despóticos senhores e poderosos de toda a glória e mágoa do meu peito.

XV

Ouvi chorar a noite porque a orgia lhe roubara o silêncio, o companheiro. Quando o céu lhe acendeu suas estrelas e no seu negro manto esmoreceu todo o brilho que o sol cria na terra e toda a formosura que ele afaga, na benigna hora recolhida em que a noite murmura a sua paz e acorda em seu mistério as orações que nos prendem a Deus e aos seus mandados e nos revelam aquilo que sustenta o coração, quanto o eleva e quanto o enternece, quanto lhe abranda a mágoa e o incendeia, e quanto o arrasta exangue em seus lamentos—nessa hora bemdita, à paz da noite e à sua redenção respondeu o alvoroço e o sacrilégio de multidões perdidas no torpe ardor de indignas cobiças. Abandonadas à sordida torrente da impiedade, onde se afoga a candura e a fé e toda a essência que em nossos corações renova e alenta a imagem e a vontade do Senhor, e do mundo nos ergue a êsse seu reino de amor e de perdão e de pureza, ignoram a noite e o seu consolo. Impenitentes reprobos, profanam o divino silêncio emquanto escutam o rouco clamor da perdição.

E a noite, que orvalhou a bonina e acalmou os ramos agitados da floresta e adormeceu o rebanho e o seu pastor, que soltou mais clara a voz das águas e fez crescer a sombra da montanha, cingindo-a de grandeza e fortaleza, e compassiva veiu mansamente a resgatar de penas e trabalhos os vilares e casais afadigados, prostrados da canseira que dá o pão—a noite, o arauto sagrado do silêncio, sua mística sérva e confiada, sentindo que uma chama infernal a prostitue e no seu crepitar a martirisa, chorou amargamente o desvairo infiel que, ultrajando o silêncio, o aborreceu na injúria que o trocou pelo rumor da cidade enlouquecida.

Ouvi chorar a noite atraiçoada porque uma orgia atroz afugentou o seu supremo bem e companheiro que a inspira e lhe diz salmos divinos, o silêncio que ela ama e é o seu esposo. E então, ferida e dorida, me prendeu em compungidos laços da sua mágua, apertados e estreitos, como aqueles, bemvindos e queridos, que eu senti quando a vi, docemente, a proteger a bemaventurada terra a que trazia seus carinhos de sombra e de mudez.

XVI

Mal me aparta da esperança o desengano, logo vem a prender-me nova esperança de trazer a esta terra e vêr perfeitos os infinitos sonhos da minha alma, êsses que por Deus sonho e Deus me dá.