XII
Se Deus me concedesse o seu podêr e o Senhor permitisse que um momento eu vivesse em puro espírito, convertendo a miséria em candidez, eu quereria erguer-me ao cimo casto e austero da montanha, da mais alta montanha que avistasse, e aí, tocando a terra tão sómente no píncaro agudo revestido dessa sagrada alvura imaculada que é a neve branca, eterna, incorruptível, aí me despiria totalmente da mentira implacável que nos prende, aí libertaria o coração em seus laços mortais tão oprimido, aí os soltaria para seguir humilde e fielmente o seu anseio.
Quanto penso e a razão me contradiz, a oculta rebeldia desleal que jura por certeza a própria dúvida, quantas palavras digo que eu não sinto, quantos passos eu dou atraiçoando meu querer e vontade e aspiração, onde obedeço ás convenções do mundo e onde à impostura cedo por fraqueza, o falso pranto que cobre a indiferença e o riso em que o enfado anda escondido, e o louvor sobrepondo-se ao desprêzo, e o desprêso negando as afeições, e o silêncio em que a voz estrangulei só porque estranhos podem desama-la—de todo o pervertido engano em que, inerte e prostrado, sou levado, enganado e enganando, mentindo à consciência, aos céus e aos homens, de toda a confusão dêsse tumulto em que o ímpio sacia o seu escárneo, eu iria isentar-me, dissipando-o no cimo glorioso da montanha, revestida da neve imaculada. E para que fôsse tal qual um cristal feito só de luz, assim eu lavaria o coração de quanto na mentira o enegrece. E então me sentiria redimido porque só a Verdade me prendia!
XIII
Segui de olhos vendados a ilusão. Para que não visse a aspereza do meu trilho, para me guardar de espectros que o assaltam, para me ocultar torpezas dêste mundo, cegou-me e desviou-se do caminho, juncado só de cardos, em que um ríspido destino me trazia. Ergueu-me em suas azas e levou-me àquela altura onde não ha treva e a luz não tem fraqueza nem crepúsculo, onde os espinhos se convertem em rosas, onde o veneno se transforma em filtros salutares vivificantes, e a amargura e a dôr e toda a pena se dissipam em auras incensadas.
Se, porêm, a ilusão me abandonou e o desengano apunhalou o meu peito e o fez chorar, não descri da ilusão nem a neguei. Sentindo-me infeliz, pedi aos ceus que aos anjos de ilusão me confiassem, que de novo os mandassem libertar-me da vileza da terra e seu tormento, da malquerença, do odio e da avareza, de quanto mal nos prostitue a alma e atraiçoa o Senhor. Pedi-lhes a cegueira da ilusão, pois quanto mais me cega mais a amo, mais distante me leva da ruindade, mais no seio de Deus me faz sonhar.
Tanto a amei e lhe dei meu coração, tanto lhe quiz meu peito e a adorou, que jámais me rendi ao inimigo. Se o desengano me assalta e fere e prostra atormentado, não lhe imploro graças ou consôlo, só da ilusão espero a fortaleza.
Prendeu-me nesta vida! Fui seu servo. Assim na morte a encontra bemfazeja!… De contínuo lhe rogo, humildemente, que na morte me guie e arrebate das certezas mesquinhas dêste mundo à incerteza feliz em que ela reina e em sua benção nos redime e exalta.
XIV
Passa ligeira a nuvem no luar. E, por momentos, foi obscura palidez incerta aquele espaço ha pouco resplendente, adormecido na mais dôce luz.