E entre tanta riqueza que ela ostenta, em tão pura glória fascinando, quis estranho mistério que a esquecesse e, rebelde ao encanto, apenas visse e sentisse e amasse, subjugado, a rosa solitária mal aberta, derradeiro murmurio do rosal que penitentemente vai sofrer sua nudez sevéra do inverno. Só ela me prendeu e cativou, só por vê-la adorei a claridade e tudo o mais senti como dormindo, distante, inerte e frio, silencioso.

É que, talvez, meu pobre coração e o ardor que o consome e êle alimenta, sejam pouco e não bastem para adorar a doce palidez de uma só rosa!… É que, talvez, prendido só à rosa e transportado todo em seu perfume, nem assim lhe pagou, mesquinho e misero, o tributo do amor que êle lhe deve!…

XI

«Sempre só»[1] ali estava recolhida em sua estreita cela que habitava, na muda clausura de um retiro, sevéramente nú, desadornado de quanto o luxo ordena, inventa e quer para saciar suas mortais doçuras e enganos.

[1] Quadro de Paul de Plument.

Respira austeridade aquela estância, a cuja porta cessa, proìbido, o rumor apressado dos escravos, comprados, seduzidos pelo oiro, para servirem a gula, o capricho e a indolência dos fracos e orgulhósos, abundando no fáusto, e ocultando nos fumos e vaidades da grandeza a miséria dos bens da alma e do corpo, um ser enfêrmo que a força desherdou e o ânimo robusto desconhece; e é tão pobre de alfaias a morada onde a vi «sempre só», serenamente entregue ao seu scismar, que essas poucas, singelas, que lá tem e são quanto lhe basta para amparo das rudes provações do seu viver, essas poucas alfaias da indigência mais alargam em torno a solidão do que quebram, em um tenue clamor, o êrmo rigoroso da pousada.

Esplendor que a engrandeça, outro não tem, nem quer, nem recebeu, senão a luz do sol e a do crepusculo, e a da aurora, e o luar, e a estrela, e a palidez da nuvem errante, quanto dos céus lhe vem, a visitá-la, infinitos e prodigos tesouros dos que a presença do Senhor protege. Pela fresta rasgada na parede, amplamente aberta à sua benção, vem os ástros ungir a solidão e a obscura pobreza que a agasalha.

Mas, iluminada dessa luz bemdita, da luz vinda dos céos, eis que a velhinha que na cela habita, e ali vi «sempre só» no seu silêncio, a amá-lo e a aquecê-lo repassando-o dos alentos gerados do seu peito, eis que vai lêr a folha desbotada e a desdobrou diante dos seus olhos, amortecidos para a luz do mundo. Uma estranha beleza a reanima; uma estranha doçura lhe sorri e em seu rosto sorrindo acende a vida. Não sei se é de carícia, se de dôr, se de saudade, esperança ou desengano; se entreviu, já distante, a juventude na branca túnica que lhe foi seu manto, se é a velhice que desce a arrebatá-la envolvida na sombra da sua mágoa. Por certo, são visões que ali adejam e o coração lhe nutre no seu sangue, aureolando-as da chama e do fulgor que do coração se ergue e o purifica, ora sinistramente, ora em glória, e sempre consumindo-o na eternidade de um divino amor.

E entre visões que então a rodeiavam, recitando-lhe os salmos, todos lidos no seio que sofrera e confiára a afectos e ternuras e carinhos a ventura e a sorte de um palpitar ardente, apaixonado de alegrias e penas e anseios, renasceu transmudada e foi feliz aquela que «sempre só» eu encontrára. Vi-a cercada de anjos em sua côrte, que na pobreza tinham os seus paços e na lembrança as únicas riquezas, e no silêncio sentem companheiros, no silêncio dizendo os seus mistérios de doçura e de paz e amor perene.

Nessa imagem em que a terra me mostrou na solidão a bemaventurança, nessa imagem me tem prendido a terra, a rogar-lhe que acorde na minha alma os sonhos redentores, que ali sonhou aquela que eu segui na solidão, e ali, na solidão, edificára, de cristal e sem mancha, resplendente, o seu cláustro e templo onde guardava, sagrada e isenta, toda a sua fé.