Ao ouvir as palavras da viuva, no meu peito sentindo transfundir-se toda a ventura e dôr que ela sentiu, bebi o calice que me descerrava, aquele calice que o Senhor lhe déra, e fui cativo em minha alma e prisioneiro até do proprio amôr que outros amaram.
IX
Companheira fiel da minha estrada, sempre a meu lado a mágoa me seguiu.
Comigo ela subiu àquela altura onde feliz me viu e amorteceu venturas passageiras de um momento. Entre alegrias a senti guardar-me. Calcou passo a passo o meu calvário, entoando-me os salmos da sua crença, sua fé compassiva e resignada em que a esperança, desfeita e convertida no suplício da desilusão, nem assim foi maldita ou desamada. Em todo o seu poder me iluminou; na sua mansidão curou as feridas do rigor de infortúnios e tormentos, e na sua amargura saciou-me toda a sêde de amor do coração que por amar bemdiz o seu martírio.
Já no berço a encontrei a bafejar-me com o seu tépido alento aquelas lágrimas, cláras, abundantes e divínas com que Deus me banhou a meninice. Ouvi o seu lamento dominando o rouco clamor das multidões que entre o terror nos fere a consciencia. Entorpeceu-me os braços na batalha a que fui disputar os bens da terra. Quebrou-me a crueldade em seu desvairo. Carinhosa, protege-me a velhice. Ou abril desfolhasse as suas rosas, ou novembro arrastasse os seus despojos, ou as águas dissessem seus encantos, ou no monte adorasse a magestade, em toda a natureza, na mais feliz e doce e sorridente como entre a inclemencia a mais sevéra, ouvi a voz de mágoa redizendo-me desenganos do mundo e consolando-me, na consolação bemdita de a sentir.
E quanto mais deserta foi a estrada e mais cerrado e fundo o seu silêncio, mais quis à mágoa que me acompanhou; aí me possuiu inteiramente, e aí se me entregou, candidamente, isenta de temor e de segredo. Essa foi a que mais amei na terra; foi essa que eu beijei na solidão, nascida do meu peito e nele oculta de corrompidos olhos que a profanem, no meu peito habitando e respirando sua dôr e mudez, seu alimento, no meu peito guardada e aquecida, para só viver com êle e aí morrer, ao abrigo do mundo e da traição, para só viver emquanto êle viver, revestida dos véus do seu pudor, reclusa que nutro do meu sangue e jámais beberá outro sustento.
Essa foi minha luz e companheira. Essa teve a pureza dos sacrários. Essa me exaure a vida, e por sofrê-la eu quereria para sempre a vida, aquela vida a que a mágoa me prendeu.
X
Rompeu clara a aurora de dezembro. O vento da manhã desce dos montes difundindo a secura sôbre a terra. As neblinas alvas carinhosas, ásperamente proscritas pela briza que do oriente corre a perseguí-las, mal se suspeitam longe sôbre o mar, exiladas do rio em que vogavam, brandamente cobrindo as suas águas, e banidas do vale onde habitavam, tranquilas, seguras, resguardadas no repouso do prado entre os salgueiros.
Um translucido céo vem acordar a mais pequenina forma ignorada. É clara a montanha e o pinheiral, e a inquietação da água da levada e o ribeiro profundo em que ela amaina as serenadas ondas passageiras. É clara a encosta pedregosa, inculta, e a aldeia e o sobreiral em que se abriga. E os carvalhos da estrada e os pomares e a lhama prateada da oliveira, e o comoro espesso e a madresilva que nele tece a rede dos seus ramos, e o medronheiro verde reluzente, e o musgo do valado e os seixos brancos, esmaltando a charnéca escurecida pelas hastes das urzes lutuosas, todos teem seu quinhão na luz dos céus, de todos êle disse a formosura através do cristal dessa manhã, dessa aurora sem nuvem de dezembro. Aos olhos deslumbrados desvendou quanto a terra criou de mais altivo, quanto é soberbo, grande e magestoso, e quanto de mais humilde ela gerou, quanto timidamente se escondeu nas prégas mais sombrias do seu manto. Em seu triunfo a luz os tem igualados; um só esplendor os enaltece.