VIII

A viuva contou-me o seu romance, onde nascera e amára e onde chorára, seus folguedos, esperanças e infortunios, em que Deus lhe ensinára a obediência à sua lei divina.

A casa de seus pais era pequena, nas terras do morgado, ao qual levavam, em cada ano, pelo S. Miguel, o pão, o vinho e aves, copioso quinhão, e o melhor, dos bens que o seu amor pedira à terra e a misericórdia do Senhor criára.

Entre a pobreza o mundo lhe sorriu. Na pobreza cresceu e, descuidada, na pobreza cantou, teve alegrias, conduzindo as ovelhas no pascigo pela charneca agreste e pela encosta, segando o prado quando abril floria, debruçada na ceifa ao sol de julho, tingindo os braços no rubor do mosto e erguendo-os ao luar calmo de agosto a tanger a harmonia dos eirados.

Depois, no dia memoravel do arraial, ao pé da capelinha da montanha, quando lá foi a ve-la em sua gloria, tão linda e tão garrida de grinaldas por tributo piedoso da candura que lhe guardou e deu quanto a terra sonhou de mais formoso, turvou-se de tristeza a singeleza, e estranhas magoas, venturosas magoas, anseios de paixão ergueram o peito daquela mesma alegre rapariga, criada na pobreza e no trabalho, enamorada agora do moço que a segue e a acompanha, sombra apolinea que a graça e a gentileza fascinaram.

E, então, vieram o quebranto que esquece a obrigação, as tardes prolongadas junto à fonte, segredos murmurados no silêncio da aldeia adormecida, e as timidas palavras de carinho que os labios dizem mal e incertamente, e a mudez de melancólico scismar, e a confissão do olhar, ardor sem mancha, onde a nossa alma é luz e o coração vencido vem entregar-se. Até que um dia as rosas desfolhadas no limiar da porta anunciaram a quem na estrada fosse na jornada que o céu abençoára mais um ninho. E ao pôr do sol, quando o fumo dos casais se ergue e protege o tépido repouso do trabalho, mais um lar se acendeu e palpitou à beira da azinhaga, entre os ulmeiros.

Depois ainda, volvidos breves mezes de afeição, os devaneios daquela enamorada de algum dia todos se trocaram por desvelos do berço e por cantares de mansidão dolente enternecida em que a mãe aquecia o filho ao seio.

Criou seis filhos. Uns andam dispersos, além-mar, na aventura de cobiças; outros ali habitam ao redor, nas aldeias visinhas donde avistam esse mesmo casal em que nasceram; e todos, em chão estranho ou terra patria, redizem fielmente as orações do trabalho e amor e crença e fé que no regaço materno repetiam.

Por fim, a aza negra, a viuvez!… As agonias de um alento que se esváe, esperanças que se apagam dia a dia; e a morte e o seu silêncio desolado que levaram do lar o companheiro; e a escuridão da frígida vigília escutando debalde aquela voz que não mais voltará contar-lhe as horas; e o cansaço do mundo, inerte e pálido, porque já não o aquece nem ilumina a chama do coração que o iluminava.

A terra, para a viuva, era um crepúsculo, tal qual êsse suave entardecer em que serena me contou o romance da sua vida austera e prolongada, vivida só para amar e para servir, e ainda agora servida com afecto ao renovar-se na lembrança amorosa que a evocava e parecia beijar-lhe o rasto e os passos pelos quais seguira a receber de Deus, como esmola bemdita da sua graça, a amargura, a alegria, o riso e o pranto, quanto em sua vontade êle mandasse.