Dêste modo me prendes, se te encontro. Dêste modo sou teu, se te colhi.
VI
Está adormecido o vento do outono. É côr de rosa a aurora preguiçosa em seu berço rendado de neblinas; e rutilante o manto com que cobre a campina onde a noite e a madrugada mansamente verteram a ternura de um luminoso pranto cristalino.
Entre os orvalhos vem a despontar, em hastes débeis, hirtas, ainda palidas, sementes germinadas na frescura da terra já banhada pelas chuvas dos derradeiros dias de setembro. São legiões bemditas que conquistam o chão e o seu poder e os seus tesouros para os sonhos floridos de verdura, que a primavera sonhará no encanto do colorido esplendor do seu triunfo, e para as messes doiradas do estio, cálice de oiro que se faz em sangue, sustento e amor que nos fortalece o peito e os nossos braços e nos aquece e alenta o coração.
E os orvalhos que a manhã fez diamantes, e as turgidas sementes a crescerem, seu doce brilho e seu infindo anseio de eterna juventude, eternamente renascida e erguida do pó e da secura, a redenção das cinzas apagadas do estio na brandura outonal e sua esperança, emquanto me adormecem no seu canto, murmurando-me os salmos dos seus córos, louvando ao Deus que os engrandece e exalta, na própria obediência me teem preso, acorrentado à terra na qual bebem todo o vigor e força de crescer, e arrebatado aos céus que lhes ensinam, e por eles me dizem, o misterio da sua caridade, a gloria da sua aspiração e o enlevo da sua formosura.
VII
Vive oculto um misterio em cada peito. Se o sangue o anima e move, insinuou-lhe um ser de luz ou treva, a força eterea, a do bem e a do mal, o fogo que consome e o que alumia, a cegueira mortal que precipita em profundas gehenas insondáveis, onde só a piedade vae salvar-nos, e o sonho que alevanta a espaços limpidos, onde os olhos não chegam nem alcançam e só o nosso coração póde subir. E êsse deus íntimo, ou seja luz ou treva, ou dôr ou benção, todo respira e vive em um alento, todo nele se evola e nele existe.
O rouco arfar de um peito moribundo, no combate da morte inexoravel; o latejar irado da paixão, brazas ardentes da cobiça e inveja; a tremura da ave no seu ninho, sopro ofegante de animal bravio, na incerteza da sorte e seu terror; a timidez da corça perseguida, a criança dormindo no seu berço e os anjos que a visitam e em torno adejam; o cavador prostrado de fadiga, o velho repousando docemente, no repouso de quem já avista proximo o termo dos enganos dêste mundo; a mansa vibração das orações, o brando devaneio enamorado, e a tortura do mal que é irreparavel, e o anseio oprimido da saudade… Que vidas se conteem em um só alento e no breve erguer do peito que o desprende! Que infinitos misterios nos confessa, em que mudez divina nos descobre o que a voz mais clara não traduz, quantas lagrimas chora e em que alegrias de uma celeste luz banha a nossa alma!
Quanto se encerra e vive em um só alento!… Respirar é amor ou aversão, esperança ou danação, suplício ou benção.
Nunca houve alento que me não prendesse. Dos ruins me fez escravo a compaixão, e aos bons foi por amor que me prendi.