Cresce do mar a nevoa setinosa; o ardor adormece em suavidade. E tão carinhosa a nevoa nos afaga na repousada sombra da sua paz que mais a sedução da morte nos anseia do que a tentação da vida nos exalta.

Ao rubor do poente, repetindo-o, responde o rubor da vinha debruçada da muralha a que confia o seu arrojo. Sentindo que o inverno já não tarda, portador de agonias e rigores, incerta de viver, corou juntando o sangue para gloriosamente o dar à morte.

Erradia, tenaz, afoitamente, no delirio da sua caridade, cobriu de pampanos as estéreis rochas, deu-lhes o manto da sua verdura. Beijou-lhes a dureza e aviventou-a. Humedeceu a árida secura, insinuou-lhe tumidas raizes onde vagueia a aspiração da seiva. E agora humildemente vae despir-se, vae dar à terra suas grinaldas em um derradeiro clamor ardente. A essa mãe de todo o amor as abandona para à luz da primavera renascer e em estos de verdura ressurgir da sevéra mudez a que a condena toda a rudeza agreste de dezembro.

Ao sopro turvo da primeira rajada de novembro, o pampano vermelho empalidece. Desprendendo-o da haste, o vento leva-o, rolando-o pelo chão e consumindo-o. Um murmurio de dôr lhe canta a morte e um murmurio de esperança a abençoou. Está despojada da opulencia a vinha. Acende-se em seu seio e vem surgindo o sonho dêsse viço que desponta quando a aurora de abril lhe solta a aza.

Folhas mortas, caídas, desmaiadas e dispersas pelas frígidas brizas de novembro! Em que laços de morte me involvestes, prendendo à vossa sorte o meu scismar!…

V

Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me roubaste a liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me possuiste e à tua pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz divina ao desprender da humildade e modestia os mais perfeitos perfumes, os mais doces.

Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não negariam, se Deus lhe désse a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me arrebatáram.

Ao vêr-te entregue à fria ingratidão e ao desamparo dos montes e dos cêrros mais despidos, partilhando os rigores das urzes tímidas que em sua purpura ocultam a gandara negra; escravo sem sustento abandonado em solidões aváras por quem te quís coroar no sofrimento; sem o abrigo de uma só árvore, sem o consolo do mais tenue fio de água que entre as pedras banhasse e convertesse a aspereza em limpidez; resignado filho trasmudando em doçura suprema a austeridade que o gerou e o castiga despiedosa—na tua vida sonhei terras distantes onde se ergueu a cruz e Cristo orou na paz, entre oliveiras, pedindo àquele que o mandou e está nos céus que sómente a sua vontade se cumprisse. Estranha evocação me segredou que era assim a terra santa do Calvário—no chão o mais severo, a doçura infinita; e no martirio, o amor.

Dos teus ramos tão débeis que rastejam e condição mais alta não procuram, porque só na humildade estão contentes, fiz o rasto do próprio coração onde o senti pulsar em ardor que o acordasse e erguesse para o sagrar. Por te amar, fiz de ti sinal de amor. Em meus tesouros, ricos de lembranças, marcas iluminadas folhas e bemditas onde a minha alma recebeu a graça de peregrinas almas de pureza, onde sentiu a companheira e guia, enviada de Deus, para que no mundo lhe fosse amparo e a fortificasse, e a Deus a conduzisse, à eternidade do amor divino.