Mas, anniquilado para toda a acção, entregára-se n'uma conformidade de desesperança ao seu triste destino.

Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem sequer para ahi podia volver o pensamento que logo na memoria não surgissem lembranças crueis dos espinhos por onde deixára em pedaços todo o viço da sua mocidade.

Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroços do naufragio, incolume, resplandecente, irradiando uma luz divina que penetrava a alma de beatitude,—sua mãe.

Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o tumulto da paixão convertia-se n'um culto singelo, purificador e ardente.

Instinctivamente, habituava-se á irregularidade da sua vida. A consciencia parecia adormecer,—não se repele um drama interior,—e essa indifferença, quasi satisfeita, começava a conquistal-o. Habituara-se ao egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel ciume e habituara-se tambem á presença de Laura que sabia ser o fructo prohibido. Exteriormente, a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma satisfação completas; cuidava das suas terras, passeiava, vinha bastas vezes a Coimbra conversar com os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e até mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente, sem aquelle receio de que as suas visitas fossem sabidas, que em outro tempo tanto lhe pesava e que hoje punha á conta de preoccupação pueril.

Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das suas relações com Emilia?! Era claro que todos as percebiam e advinhavam. Pasmava de que só agora tivesse feito este raciocinio tão simples e tão seguro.

Assim se consumiram cinco mezes, durante os quaes Claudio muitos dias visitou Emilia sem que em longas horas de palestra banal houvesse uma unica referencia ás luctas passadas. De longe em longe, o problema voltava á discussão, mas agora quasi friamente, á parte a ligeira irritação de Claudio, que provinha do sentimento da sua escravidão, e os fogosos impetos de Emilia que temia vêr fugir-lhe a preza.

Claudio insistia sempre pela necessidade de pôrem termo a uma vida que os envergonhava; Emilia respondia-lhe com a obrigação em que elle estava de nunca a abandonar, obrigação que lhe custara, a ella, a perda da sua honra.

Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite do filho do Albuquerque para jantar. Era no dia dos seus annos; festa intima para que só convidava Claudio, que dos velhos amigos da casa não fallava, eram sempre convidados.

Claudio foi com conhecimento prévio de Emilia, que pouco se amedrontava já com estas visitas, convencida de que os amores por Laura não adeantavam. De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente, no fim do jantar, e ás onze horas estaria na capella.