16 de dezembro. Enganas-te. Não é remorso, é orgulho o que tu sentes; não é o amor da virtude, é o pejo de confessar a tua mesquinhez e fraqueza. Aprende a humilhar-te.
Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim sonhos de paz e de conforto domestico, as ambições do corpo dissipam as atribulações da alma.
18 de dezembro. Um immenso desgosto da vida, cansado de luctar em vão. A morte seria para mim a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me. Porque? Saudades de Laura, ambição do seu affecto.
Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes, a noite vem descendo suave, humida e negra. Só o repouso da minha alma não vem; em vão o imploro da natureza propicia!
20 de dezembro. Indifferença, fadiga, reacção da intelligencia. Que te importa a miseria estranha, as lagrimas que espalhaste? Que te importa o passado? Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu destino, fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a vibora nos brejos ou a abelha sobre a rosa. A natureza não erra. Não tentes dominal-a. Vaidade das vaidades!
31 de dezembro. Meia noite. Atmosphera limpida e calma, o céu estrellado, nem a mais ligeira nuvem nem o estremecer d'uma folha. Interrogo os astros. Bom agouro? É a tranquillidade que o novo amor me traz?
1 de janeiro. Saí sósinho. Impressão de abandono, ao pensar nas alegrias do novo anno em volta do lar. Só minha pobre mãe me resta por companhia. Advinha talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste. Na praça encontrei um mendigo mal abrigado nos seus farrapos de burel. Serenamente, estendeu-me a mão, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho. Ao longe, vejo a casa de minha irmã; no campo, descendo para o rio, os gados que meus sobrinhos guardam. O amor divino, o burel, o trabalho—suprema sabedoria! Por que estranha loucura os abandonaste, por que aberração voltaste a face á felicidade que tinhas deante dos teus olhos e te lançaste nas vagas da ambição e da vaidade?
3 de janeiro. Passei a manhã no jardim, cultivando as minhas flores. Alegria plena. Cantava, arrebatado no palpitar de energia que se desprendia á luz tépida e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um lugubre rebate de remorso, phantasmas da consciencia voando levados pelos balsamos a exalarem-se da terra que o sol beija e fecunda, castamente.
A crise terminava para Claudio n'uma inacção de impotencia; o ardor do sentimento e a intensidade da razão quebravam todas as energias da vontade.
Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia; a melancolia, o remorso, a indignação, a alegria, o desprendimento, confundiam-se obscuramente, ora no desejo de possuir o amor de Laura, ora no temor do abandono de Emilia, ora n'uma viril resolução de emenda, ora finalmente n'um cansado scepticismo.