27 de novembro. Um dia chuvoso, pesado, humido, escuro. Tres horas de leitura junto ao fogão, no doce goso de aprender e de pensar. Mas esta cella é vasia.

Torturam-me ambições d'amor e de conforto moral. Nunca o tive. A affeição illegitima que contradiz o dever, rasga e esphacela o coração sem o aquecer; é uma consumpção doentia.

Quero o amor de Laura, o seu amor e não a sua piedade pelas minhas dores, quero um alento que me restitua á vida corajoso e são, não quero os balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.

28 de novembro. Não póde ser boa a caridade que alimenta o peccado. A minha compaixão pela sorte de Emilia é um novo erro. Coragem! Sê justo!

Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na sua treva por um vento inclemente. Succumbo; invade-me um suave desejo de morrer. A morte seria a paz, a libertação de todas as duvidas, de todas as hesitações, das interrogações da consciencia. Não!... Seria cobardia e vaidade: a cobardia de arrastar a minha cruz, a vaidade de ungir o meu cadaver com as lagrimas dos que me amaram. Devo viver. Quero resgatar pela virtude as offensas a Deus.

28 de novembro. A dissolução do passado torna-se um encargo em que só entra a razão implacavel e fria. Injustiça?... Não. A severidade é tambem um meio de ser caritativo; a minha complacencia com Emilia é uma falta d'amor.

30 de novembro. Um dia alegre, sorridente; a atmosphera quieta, a paysagem rutilante. Na minha alma, um esvoaçar de esperanças boas. Laura, Laura!... Toda a natureza me repete o seu nome.

1 de dezembro. F... veio vêr-me. É um antigo companheiro que se quedou no materialismo natulista. Durante duas horas, fallou-me de transformismo e de evolução, muito crente na sciencia. Emquanto o ouvia, erguiam-se na minha lembrança as illusões do passado e a tristeza caía mais pesada sobre o meu coração que sobre a terra as sombras da noite. Anciedade d'amor e de perdão. Podesse a tua alma, Laura, sentir o palpitar d'esta vida dilacerada pela amargura e havia de protegel-a, abrigando-a na sua pureza!

2 de dezembro. Destino cruel! Quero terminar uma vida de mentira, mentindo áquella mesma que foi a minha amada. Degradação extrema. Quizera dizer aos que passam:—Fugi d'este ser impuro, cuspi-me na face e desprezai-me!

14 de dezembro. Emilia morreu no meu corarão; apenas o dever e a piedade me prendem. Sinto-o bem, vendo a meu lado permanentemente a imagem de Laura. Só por ella apeteço a vida. Egoismo, ambição de repartir com uma alma pura as agruras das minhas culpas? Talvez... Ai! Quanto a duvida me opprime!