As lagrimas de Emilia são uma fraqueza, o apêgo aos beneficios do seu crime. Não seria a tua compaixão uma fraqueza tambem?

Cuidado! Pensa bem. Não é talvez a virtude que te guia, é a crueldade; não é o amor do bem, é a paixão por Laura.

31 de agosto. Esta manhã encontrei F... que me fallou dos Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito com ella. É encantadora de singeleza e de bondade, disse-me. Passei o dia no maior contentamento. Todas as esperanças renascem, vibrantes de vigor. Esqueci que ao longe uma mulher afflicta, semi-doida, bebe o calice da minha culpa. Nem as lagrimas, nem a deshonra alheia, nem a consciencia do proprio aviltamento podem perturbar-me a alegria.

Serão assim os outros homens?... Será a virtude um acaso e a miseria moral a lei comum?

2 de setembro. Lisboa. Tristeza, desalento. Impossivel conservar-me aqui, tenho de voltar a Albergaria. O que me espera? Vou luctar? Cederei abdicando para sempre da paz da consciencia e da felicidade na virtude em proveito dos caprichos e da fraqueza de Emilia? Hora maldita a da tentação! Tudo na minha vida é incerto, só o soffrimento me resta por companheiro. Abraça a tua cruz, é a cruz do teu erro!

4 de setembro. Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a fatigada, abatida, mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe d'uma candida alegria. Julgava-me restituido ao seu amor. Quando, tentando novamente desprender-me, lhe declarei que só para a tranquillisar lhe tinha dito que nunca julguei terminado o nosso amor mas que, na verdade, o tinha acreditado e estivera em risco de tomar compromissos com Laura, não teve uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de espanto, na paralysia da dor, só lagrimas se moveram na face immovel e queda. O que se passou dentro em mim, não o sei; uma compaixão profunda, angustiada, e, mais alto do que ella, o bramar da consciencia e a tortura do dever. Que me resta? Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdão e separar-nos. Deixal-a-hei pois na miseria e no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as lagrimas, dou-te a paz da minha consciencia e serei só a soffrer, soffrerei resignado, sem um lamento!

Desde esta hora, durante longos dias, todo o «diario» de Claudio revela uma incerteza e uma confusão infindas.

O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixão pela miseria de Emilia, a lembrança de Laura, cujo affecto sentia crescer, o cansaço d'uma vida inquieta e a ambição de tranquillidade, tudo o fazia oscillar constantemente entre os mais desencontrados propositos.

Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia e a vontade haviam naufragado nas ondas do seu coração.

A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem rumo, desvairada, em meio de esperanças, desillusões e desalentos.