—Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me. Nem outra cousa se justifica. Não valia a pena ter o incommodo de vir aqui só para isso.

Mentia; o que eu procurava era a confirmação das palavras do dia antecedente. Tudo acabou. Conversamos duas horas, com a animação que o contentamento intimo me dava, sem uma referencia d'amor, sem a mais leve tentativa de reconciliação. Quando parti, pareceu-me que os olhos se lhe humedeciam. Porque? Comprehendeu que a separação está consumada? Para sempre!

Extincto todo o capricho sensual, só ligações moraes nos poderiam prender, e essas desvaneceram-se ao vêr por terra todas as illusões de emenda, de doçura, de resignação, que d'ella esperava para resgatar a nossa falta commum. Restaria a compaixão pela sua desventura e o receio de uma allucinação que, pondo-lhe termo á vida, aggravaria as minhas dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou! Eis-me livre e tranquillo.

20 d'agosto. Fui talvez cruel, abandonando Emilia á sua miseria. Se não fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi á virtude ou ao egoismo, a um novo apetite, ao cansaço do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me o coração. Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se esvae.

Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o soffrimento dos que choram por nós! Talvez uma vága saudade...

27 d'agosto. Uma hora cruel, extrema angustia. Hoje recebi uma carta de Emilia, pedindo-me que fosse vêl-a á noite, na capella. Todo o dia fiquei na maior inquietação. Passeei de tarde procurando accalmar-me com a fadiga do corpo. A excitação crescia e foi na maior anciedade que ás dez horas cheguei á rua da Cruz.

Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se na terra, a meus pés, suffocada pelas lagrimas, disse-me que me chamára porque já não podia soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma viagem longa, não podia crêr que tivesse acreditado o que n'um momento de ciume me tinha dito, tres annos de amôr em que tudo sacrificára por mim não podiam terminar com duas palavras de separação. N'isto, ergueu-se. Succumbido de terror, vi ressuscitar, deante de mim, banhada de luar, aquella pallidez e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei ebrio d'amôr; e da humida escuridão da capella vieram aos meus ouvidos, como uma anathema, como a eterna excommunhão da paz e da virtude, lentamente, pausadamente, estas palavras:

—Diga-me... diga-me... oiça bem!... se não posso contar mais com o seu amôr. Quero suicidar-me!

Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou de mim e menti, menti com firmeza, vilmente. Tudo era falso; nunca amára Laura, nunca pensára em casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de cousas urgentes, o meu amor por ella não afrouxara um só momento, queria só castigal-a dos seus imerecidos ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a. Entre os meus labios e a sua face interpunha-se uma sombra que em vão procurei dissipar, a sombra da mentira. No fundo, bem o sei, não cessaram um instante as ambições de regeneração. Só o temor do suicidio me contém.

30 d'agosto—Lisboa. Vim até aqui calcando as supplicas mais compungentes que podem sair d'um coração humano. Se ouvisse sómente a compaixão e a piedade, voltaria atraz... Não posso mais! Morro esmagado entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o orgulho e ergue-me um impulso de rectidão. Rectidão ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer na vergonha ou ensaguentar a virtude? Vae, não receies, diz-me uma voz occulta.