Ás muitas despezas que provinham da lauta vida provinciana, juntaram-se em breve alguns mezes de inverno passados em Lisboa onde D. Pedro Albuquerque acabára por estabelecer residencia que lhe permittisse frequentar a capital com as commodidades de que era tão cubiçoso. A abertura das linhas ferreas deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada passo estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile do conde de X..., para ouvir uma cantora em S. Carlos, ou mesmo, mais simplesmente, para se vestir no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas; e, inversamente, a cada passo estava acarretando de Lisboa para Coimbra moveis de mau gosto que vinha misturar ás solidas mobilias de pau santo, herdadas de seus avós, roliços estofos armados em casquinha que um estofador francez, chamado Gardé, lhe vendia por bom preço, farrapos d'algodão arrendados que vinham substituir os sumptuosos cortinados de damasco de seda vermelha.
Tambem trouxe um cosinheiro que, á força de consommés, foie gras, galantines, mayonnaises e outras preparações que muito confundiam e intrigavam os velhos fidalgos beirões que se sentavam á meza do morgado de Cercosa, veiu banir para a frugalidade dos banquetes da burguezia prospera o succulento pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes de porco e a famosa vitella de Lafões.
Foi á meza do Albuquerque que primeiro, em Coimbra, se viram gordos espargos, comprados em Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes o seu profundo saber para usar tão exoticos petiscos, deixavam de os comer por hesitarem na forma de se servirem.
O Albuquerque, que lhes percebia o embaraço mas que por cortezia não queria dizer-lhes francamente como se comiam espargos, fallava alto, rolando-os no molho com a mão e chamando para si a attenção, a dar o exemplo.
Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que os bisonhos convivas acceitassem os novos manjares. Os mais ousados, os que primeiro entraram na communhão dos usos estrangeiros, vinham depois para a Via latina gabar aos collegas menos elegantes a cosinha franceza, os espargos e as galantines, pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento d'essas cousas finas perante a gente rustica que as ignorava.
Entretanto, a administração dos bens andava por mãos de feitores e procuradores que todos enriqueciam e serviam a contento, se tinham a habilidade de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de Coimbra o Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes fazia.
A velha morgada, a mãe de D. Pedro, julgava ter cumprido a sua missão no mundo fazendo do filho um homem religioso, que ia á missa aos domingos e dias santificados e se confessava todos os annos, de casaca e gravata preta, e um fidalgo pela distincção com que se havia n'uma sala e na presença das damas.
A sua grande preoccupação era a manilha e os parceiros de todas as noutes, no salão do palacio da estrada da Beira onde ella invariavelmente se encontrava no mesmo logar, distribuido mesuras e palavras doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu finissimo tacto pelas cousas que os interessavam, a este pela saude dos filhos, áquelle pelo andamento dos trabalhos na Universidade, e áquel'outro pelas colheitas das propriedades que possuia nos campos do Mondego e a que amiudadamente se referia, para dar mostras de riqueza.
Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a casa do Albuquerque estava na realidade escalavrada. Em Lisboa tecera uma rede de lettras passadas a amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros de dinheiro, os bens de Cercosa já estavam hypothecados á misericordia de Vizeu, e um negociante da Praça Velha, em Coimbra, com quem se adeantára em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava por uma hypotheca das melhores insuas. Nem ao certo se sabia a quanto montavam as dividas porque nunca se tinha pago um real de juros a ninguem, havia contractos feitos em condições leoninas e, quando se chegasse á liquidação, era de esperar que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.
O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham privado do regabofe que fôra toda a sua vida, com o grosseiro bom senso que acompanhou a sua existencia descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho, procurando convencel-o da conveniencia de se salvar pelo meio simples que lhe ia propôr.