Era preciso casar-se, dizia-lhe; a mãe tinha fallecido, faltava áquella casa uma senhora que lhe désse o tradicional resplendor; elle, D. Pedro, estava com quarenta annos e era necessario que tivesse um herdeiro. Demais, accrescentava, em continuação do exordio que invocava os brios fidalgos, as dividas tinham crescido e se encontrasse uma noiva com um dote bom...

A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado silencioso e indifferente, de perna cruzada, limpando pachorrentamente as unhas com um canivete, ergueu a cabeça ante-gozando boa maré de dinheiro e recrudescencia de prazeres.

—Pois depende só de ti! apressou-se o tio a concluir aproveitando a impressão favoravel. Tua prima Maria Francisca...

—Oh! diabo! Mas ella em tempo não tinha tido umas historias com um Mendonça, capitão de engenharia?

—Não, quem sabe lá d'essas cousas?! Fallaram um pouco, mas isso passou. Raparigas tem sempre os seus namoriscos...

—Em todo o caso...

—Deixa-te de piéguices; vamos ao que importa... Tua prima está agora com os seus trinta annos,—e é uma mulher toda perfeitaça!—o pae não póde ir longe porque já deve ter passado os oitenta, e tu bem sabes o que ali está... um poço sem fundo! O Ornellas, do Pragal, disse-me, a ultima vez que estive com elle, que só em ouro o velho devia ter para cima de cem contos de réis.

O sobrinho não pôz mais objecções, fizesse o tio como quizesse. Foi para Lisboa, a gastar por conta das suas novas esperanças e das heranças futuras, e o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado o casamento de D. Pedro.

Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha e Mello, tinha em Vizeu uma historia muito sabida e commentada.

Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros, dentes perfeitos e longos cabellos d'azeviche, filha d'um fidalgo, avarento e sórdido, e d'uma creada que elle tivera.