O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de que o casamento estava ajustado, o que só pela certeza d'uma nova fortuna a desbaratar o commovia. Comprou ricos presentes para a noiva, depois de conseguir do agiota da Praça Velha um novo emprestimo para o qual hypothecou as insuas, fazendo-se então largas contas de todos os atrazados que d'esta vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu prestar homenagem, que era de bom estylo, á futura esposa, a qual de resto conhecia muito de perto dos bailes e festas beirôas onde costumava encontral-a e onde uns leves pruridos de conquista tinham creado já entre os dois uma certa intimidade.

Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma ligeira reparação do seu sumptuoso palacio, que foi rapida, e sem mais delongas se realisou o casamento.

Passados os primeiros e curtissimos tempos em que o Albuquerque julgou de bom gosto acompanhar a mulher em visitas e apresental-a aos seus velhos amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente eram os da sua casa, voltou ao seu antigo viver, jogo, mulheres e bastas visitas a Lisboa. Entregava a administração da casa á esposa para melhor conquistar a sua generosidade e simultaneamente se desonerar de enfadonhos encargos.

Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus e uma insaciavel sede de mandar, exultava com tão subida investidura.

Não se casára com outro fim; a liberdade compensava-a de todas as magoas presentes e passadas, incluindo a indifferença do marido que tratava respeitosamente mas que no intimo considerava como um simples e pouco incommodo tributo imposto á sua independencia.

Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu, o Albuquerque veio com ella a Vizeu; mas ao fim de poucos dias, já tristemente convencido de que a fortuna a herdar ficava muito áquem do que lhe tinham annunciado, deixou-se ganhar pelas saudades dos seus prazeres habituaes e apressou-se a voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga do povo, travessa e maliciosa, muito cubiçada dos estudantes, e que possuia o condão de despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.

A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar a herança, o que realisou com uma ganancia e uma crueldade que recordavam bem a ascendencia paterna.

Foi então que ella contractou um procurador e administrador, que havia de a acompanhar a Coimbra e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar n'aquella missão de morgada e senhora rica que aos seus olhos significava uma corôa real.

O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco annos, lindo, d'olhos azues e cabellos louros, occultando sob uma apparencia de doçura e placidez um coração apaixonado e ardente.

Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma inflammada avidez de luxuria, entregou-se sem reservas a um amor que realisava a melhor fortuna da sua vida.