A humildade do padre, casada com um vigor juvenil, dava-lhe uma impressão de plenitude em que o contentamento do espirito coroava os regalos do corpo satisfeito.
Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente a esse amor, concentrando todos os seus esforços em affastar de Coimbra D. Pedro para mais tranquillamente possuir a amante.
—Vá v. ex.a para Lisboa, dizia ao morgado; não se prenda com os negocios da casa. Estão a meu cuidado; não vim aqui para outra cousa. É a minha obrigação.
O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa, o padre fazia de modo que o dinheiro nunca lhe faltasse para que não se tentasse a voltar a casa. O fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto trabalho e affecto; aos seus amigos não cessava de o elogiar, como um modelo de dedicação, associando-lhe sempre o nome da mulher cujo zelo pelos bens e pelas commodidades do marido, dizia este, a obrigava a viver quasi sempre no meio d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida por uma velha creada que trouxera de casa de seu pae.
Porque era Cercosa a habitação preferida dos amantes. As visitas, os serões com os lentes e mais frequentadores do palacio da estrada da Beira, a creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra as horas d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio do solar de Cercosa protegido pela discrição da creada que já em Vizeu fôra confidente de D. Maria Francisca.
Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos intervallos, tres filhos; Leonor, José e Laura. Até aos nove annos foram educados com os velhos creados da casa, no abandono proprio das circumstancias em que se encontravam; a mãe a todo o momento estava em jornada com o capellão para Cercosa, o pae fugia para Lisboa sempre que se via com algum dinheiro e, quando estava em Coimbra ou na Beira, passava o tempo em caçadas, visitas e recepções, folgando continuamente, como um rapaz, ora em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia com largueza. D'este modo, os filhos tornavam-se um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer aos prazeres do morgado.
Era preciso remover esse embaraço. Sobre isso conversaram amigavelmente os paes, que de resto sempre viviam em paz e harmonia, n'uma indifferença intima e exteriormente na mais estremada cortezia.
Queriam para os filhos uma educação primorosa, diziam, como aquella que elles mesmos tinham tido, queriam-n'os, principalmente, educados na religião christã.
Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento das irmãs de Santa Ignez, estabelecidas em Lisboa, umas freiras irlandezas que a marqueza de Fermelã, piedosa senhora que lá ia todos os dias ouvir missa, lhes tinha elogiado como um modelo de bons costumes e fina educação.
Durante muitos annos, no 1.o d'outubro, D. Pedro era certo á porta do recolhimento, que ficava para os lados do Campo d'Ourique, a principio só com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos nove annos, com as duas filhas.