Não pódes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade e instancia com que luctei, chamando-a ao dever, em nome dos filhos, da religião, da consciencia e do proprio amor que me jurava e de que implorava um acto de resignação e desprendimento, restituindo-me a tranquillidade d'alma sem a qual me julgo indigno da vida.

Tudo foi em vão! A cegueira do peccado vendava-lhe todos os sentidos e não tive meio de a levantar d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por infelicidade sua e minha, ambos nos precipitamos n'um momento de desvairada tentação.

Chegou porém a hora de pôr termo á miseria e vergonha em que me tenho arrastado.

Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou pessoas a que muito quero em termos que nunca julguei ouvir da sua bocca e que até mesmo ignorava que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora mais indigna da minha vida. Fugi, para não a esmagar n'um impeto de raiva, e agora estou no firme proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer cousa irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre de consentir em prolongar, por mais um só dia que seja, os nossos amores.

Ah! meu Jorge, tu nunca saberás que fortuna significa uma consciencia imaculada nem poderás imaginar o que são as penas do remorso! Como um Lazaro, coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas, só peço a Deus que me proteja e conduza no seu infinito amor. Todas as dores do corpo, todas as enfermidades serão para mim melhores que o castigo das minhas culpas nas accusações da consciencia.

Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem piedade que me perseguem e aterram, reunindo n'um só esforço todas as energias da razão e da vontade que ainda possa encontrar nos miserandos restos d'um corpo exausto e d'uma alma repassada de soffrimento. Quero casar-me.

Conheceste como eu as irmãs do nosso bom amigo José d'Albuquerque; é mesmo provavel que mais do que eu as tenhas encontrado na sociedade que frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou no Porto com um rapaz muito rico; a Laura está ainda solteira e é no seu nome e na sua imagem angelica que estão hoje todas as minhas esperanças.

Não me julgues apaixonado; vão longe esses tempos e devaneios, posto que a sua formosura e os seus dotes bem os justificassem. Procuro realisar um casamento longamente reflectido e meditado, á fria luz da razão.

Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos annos a vida era para mim uma festa pagã em que a livre expansão de todas as forças animaes significava a felicidade suprema; mas a experiencia e a dôr ensinaram-me que concorrentemente ha leis moraes, derivadas de inspiração interior, a que não se póde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e prostergado, passei pelas mortificações que só agora espero affastar.

Não que a vida mystica me tente ou desconheça o que devo ao corpo. Pelo contrario, vejo e comprehendo as suas imperiosas necessidades. Mas quero que a existencia humana, para ser bella e nobre, se traduza n'um equilibrio das inspirações divinas e das aspirações terrenas, na harmonia da luz da consciencia dominando e regulando o tumultuar das paixões mortaes.