Não contesto as leis da vida organica e tudo o que a sciencia me ensinou; pretendo apenas que, conjunctamente e superiormente, existem leis divinas, um impulso interior que nos domina e ordena a pratica do bem.
N'estas condições, dada a conclusão definitiva a que cheguei sobre o que a vida deva ser, pódes comprehender a que motivos obedeci inclinando-me a casar n'uma familia nobre. Laura trará ao meu casal a candura, a ingenuidade, a educação profundamente religiosa que recebeu e os encantos da vida aristocratica, no melhor sentido da palavra, os delicados instinctos artisticos que são a coroa da vida mundana e a cercam d'um puro deleite; eu levarei com o meu sangue plebeu os habitos de trabalho que são o brazão da gente humilde e o fundamento da dignidade.
E assim viveremos na modestia que convém á exiguidade das minhas riquezas, na caridade que será para nós o premio divino, o melhor dos bens, e no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam n'uma aurora infinda onde o sol se eleva sempre, espargindo serenidade e luz e jámais se afunda derramando a treva.
Quizera dizer-te todo o programma de vida que em longos mezes de inquietação pude determinar na anciedade de paz e de virtude; quizera dizer-te como espero resgatar estes tristes annos de loucura e de erro.
Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga d'uma noite tempestuosa que me deixou o espirito em desordem, a esperança de te vêr dentro em pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo pedir-te, e é o fim principal d'esta carta, é que sem perda de tempo venhas vêr-me para me ajudares com o teu conselho e a tua amisade e para regulares a minha situação com Laura e os Albuquerques, conforme as boas regras de cortezia em que és perito e de cujos preceitos me não reputo sabedor.
Seja qual fôr o teu juizo e opinião sobre as duvidas que me trazem perturbado, a tua presença será para mim, estou bem certo, um grande bem. Nem tu pódes calcular que allivio foi esta curta confissão! Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras afflictivas da noite; enche-me o coração a esperança e a paz. Meu Deus! Protegei-me no caminho da virtude e fazei que jámais d'elle torne a desviar-me!
Do teu
Claudio.»
N'essa mesma manhã, Claudio, levado ainda na impaciencia que o fizera escrever a Jorge, pediu á mãe, no fim do almoço, que viesse fallar-lhe ao seu gabinete e ambos se encaminharam para lá.
A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos negros, a brilhar na face rugosa toucada de cabellos brancos, esperou um instante que o filho começasse. Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer; sentia sobre si o peso e o terror d'um grande crime a confessar perante o tribunal supremo. Foi á janella, voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho, pegou n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, e n'estes movimentos inconscientes e desconnexos dava pasto á sua agitação sem poder articular uma palavra.