—Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...
Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual fastio, mas sem molestia alguma. Claudio não se conteve; foi ao concerto. Receiando os seus amuos, explicou que era só por uma ou duas horas quando muito, que o desculpasse. Tinha muita vontade de ouvir a pianista; precisava mesmo de se instruir.
Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. Claudio saiu na persuasão de que a tinha deixado convencida e de que ella generosamente acquiescera aos seus desejos.
A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem de deixar o theatro até ao fim do concerto. Sentia-se enlevado nas visões tragicas de Beethoven, nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.
Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, ainda magoados das mortificações moraes, uma agitação sádia e capitosa.
Recolheu a casa contente, sentindo em si uma vibração que o erguia da prostração morbida em que os azares do seu destino continuamente o traziam. Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se do seu leito cautelosamente.
Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas um lenço a indicar as muitas lagrimas que tinha chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e nem se moveu nem disse uma palavra.
—Que tens, perguntou Claudio ancioso, que tens?
Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos eram vãos, baldada toda a mágua afflicta com que era interrogada. Uma convulsão de choro foi a sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.
Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações dos modos de indifferença e aborrecimento com que a mulher o tratou durante todo o dia que se seguiu á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava apenas no seu triste destino, d'esta vez sem poder fugir a uma ponta de azedume que se lhe cravava no coração.