Não era senhor de si, não podia dispôr de duas horas para seu prazer e sua instrucção, para repousar, avigorando-os, os membros fatigados? Toda a obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos e os seus caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava como uma perniciosa ociosidade? Esquecia as aspirações de virtude que o tinham levado ao casamento; o egoismo, calcado pelo dominio absorvente da mulher, revoltava-se em nome de direitos soberanos e infiltrava-lhe no peito um mau fermento. Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe pelo pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.
Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, a independencia, os carinhos protectores da mãe para lhe suavisar a cruz a que o prendera o amor de Emilia.
Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de uma mulher que constantemente o magoava com uma crueldade que a seccura do seu coração ignorava, todos os caminhos estavam vedados, o carcere era perfeito, o soffrimento sem esperança de remissão que não viésse d'aquella mesma que era a causa da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia e fé, clarões que varriam estas sombras.
Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que o seu dominio se traduzia acariciando aquelle que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da esposa eram as exigencias do dever. Precisava banir da alma os derradeiros impulsos do egoismo, abdicar de toda a liberdade, viver só e unicamente para a sua familia. Que lhe importava o resto?
Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias do corpo expandindo-se ao contacto da natureza, tudo eram vaidade de que lhe cumpria despojar-se perante a imagem hirta e sombria que a consciencia lhe apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade a palavra dever. Era necessario viver para a sua familia: essa era a obrigação por excellencia para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente havia de consagrar-se, tendo posto termo a um passado criminoso que não voltaria. Acceitasse pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos egoistas.
Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas. Essas visitas, á proporção que o caracter de Laura se revelava, começavam a tornar-se um problema inquietador.
Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença da mãe e das serras de Villalva eram para o seu coração um magico lenitivo que apagava todas as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.
Perante ellas sorria, como se bebesse, por um filtro mysterioso, a mocidade e a frescura. Não o comprehendia Laura e por isso sentia, com um vago ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer cousa que lhe pertencia, os constantes cuidados do marido pelo que se passava em Villalva, a alegria e a impaciencia com que esperava o dia de lá ir, as pequeninas necessidades que inventava para servirem de pretexto a mais frequentes visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e bom.
Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já não era sem receio que Claudio se aventurava a lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se contrariava.
—Vamos amanhã?