—Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação as Mendonças que vão para o Porto e vieram despedir-se.

—Ah! é verdade!... Depois de amanhã...

—Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem a mulher do dr. Ramos que queria vêr o nosso jardim e talvez cá viesse.

—No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não sei o que por lá vae...

—O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.

Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam invariavelmente todas as semanas. Mal passava o domingo, era necessario começar a preparar o terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar a irritação de Laura.

O problema não tinha solução; estava destinado a manter-se indefinidamente nos termos em que o punham a contradicção do affecto de Claudio e da indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o marido ou ficasse em Coimbra, essa visita era sempre toldada por inquietações.

A presença de Laura importava um retraimento de expansões que por completo prejudicavam toda a alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a apressar-se no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a alegria com a suspeita do descontentamento da esposa. Temia o mutismo em que se traduziam os seus frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro que lhe embargava toda a felicidade.

Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas custavam, porque o filho, para lhe poupar a tranquillidade dos seus ultimos annos, apparecia-lhe sempre sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo amor da mae se lhe mostrava na face mas que no intimo suspeitava que jámais seria o seu quinhão n'este mundo.

Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao transpôr a estreita porta do casal de Villalva, para que as trevas do coração jámais se derramassem na luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações não cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com as suas bençãos. Mas, voltadas as costas a esse sanctuario, logo a tristeza involvia Claudio como n'uma lugubre mortalha.