Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos, attraidos pela fama de gente rica recentemente casada, esperando generosidades proprias de quem tem fé na recompensa divina.

Raro batiam á porta principal. Contornavam a casa e, segundo o seu velho costume, procuravam a porta de serviço, onde tinham probabilidades de encontrar alguem que os attendesse. Para isso passavam em frente das largas janellas da sala de jantar, vestidas de flores e trepadeiras a emoldurar o fulgor das pratas e as cores mimosas das louças da India, que se viam dentro, cobrindo as paredes em extensas prateleiras. Quando sentiam vozes na sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas melopêas.

Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia os mendigos cuja miseria e immundicie repugnava á sua esmerada elegancia; apressava-se a despedil-os recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido de os vêr sair.

Claudio tentava moderar essas impaciencias com palavras de sympathia pelos pobres, esperando despertar iguaes sentimentos no coração da mulher e associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava uma indifferença inabalavel.

Essa indifferença havia de transformar-se um dia n'uma explosão de maldade em que deviam naufragar todas as esperanças de conversão.

Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante que as sombras do arvoredo moderavam com uma vibração de frescura e os lilazes e as roseiras embalsamavam espargindo perfumes, Claudio almoçava com Laura, quando um mendigo entrou a cavallo n'um burro, um par de muletas cruzadas sobre o albardão esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo attrito constante dos apparelhos que jámais deixava, ou pastasse pela beira dos caminhos ou conduzisse o seu miserando cavalleiro. O burro entrou, parou em baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava rezando, elle, com esforço, estendendo os labios, procurava alcançar os ramos d'uma acacia que tinha em frente.

—Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura dirigindo-se ao marido e apontando o mendigo. É preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não se póde parar n'esta casa!

—Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem mais...

—Qual precisam! Precisam menos do que nós. Que trabalhem! O que elles são é uns vadios, a viver a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi a cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.

—Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que pôde fazer um mealheiro, mas a quasi totalidade d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão os que ficam por esses casaes!... Nós é que deviamos procural-os.