—Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos incommodarem a toda a hora e a todo o instante...

—Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer isso. Temos obrigação de os ajudar. Até são bonitos!... Nos seus andrajos, nas suas rugas cavadas, n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas intimos de miseria physica e de miseria moral, quantas dores, quantos desejos calcados, quanta esperança enganada!

—E os que andam ahi pelas tabernas e pedem para ir beber, tambem te parecem muito bonitos?

—Tudo é miseria. Que importa que venha das enfermidades do corpo ou das enfermidades da alma? Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a quem te pede.

—As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando de colera e querendo terminar; eu é que não estou para aturar isto. Tenho cá os meus pobres que sei que são necessitados e não quero saber dos outros. D'aqui a pouco não ha gente decente que possa vir a esta casa. Sempre tudo entulhado com pobres. Deus sabe as doenças e a porcaria que elles trazem. Ainda queres agora que ponham os burros a pastar no jardim!... Eu é que não estou para aturar isto!... Para me consumir basta o que aturo aos brutinhos dos creados.

Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante a irritação de Laura, e ficou scismando, com infinita mágoa, no caracter rebelde da esposa. Enganára-se? Essa educação religiosa das irmãs de Santa Ignez, em que tanto se fiára, seria unicamente uma série de formulas occultando a inanidade de sentimento? As devoções bastas, as orações, as missas, as confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos ecclesiasticos nos dias de abstinencia seriam um habito, ainda uma singular especie de vaidade, a vaidade religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e uma implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, a candura de Laura seria apenas a inexperiencia d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o esforço e de toda a contrariedade, só para ostentar a gentileza da sua figura?

Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava todas as suspeitas ruins com a vara magica do amor e da esperança. Não; Laura era um anjo. Só a impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava a imaginação de pavores. Toda esta irritabilidade que simulava estreiteza ou perversão moral, todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a uma simples commodidade da mulher, d'uma passividade completa, tudo isso eram apenas o resultado necessario d'um mau estado physiologico, d'enfadonhos incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, quando Laura fosse mãe, a generosidade, os carinhos e a caridade haviam de desabrochar na sua alma e a vida seria então para Claudio o eden que nas attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar. Esperasse; a sua hora chegaria.

E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, perante o dominio da esposa, dos seus mais pequenos desejos e das suas ambições mais nobres, tomando por motivos de bom quilate as razões que para desvanecer suspeitas amargas lhe eram suggeridas por um amor ainda flamejante, e porventura por um ardor de sensualidade que não attingira ainda a sua inevitavel e satanica consumpção.

Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se á noite em casa de Claudio os antigos frequentadores do palacio dos Albuquerques. Vieram as classicas mezas de jogo com os seus castiçaes de prata, os cinzeiros e o panno verde, accenderam-se as vélas do piano para ouvir as walsas e as marchas em que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua educação, entre a assistencia circularam os taboleiros com bolos e chicaras de chá levados nos braços hirtos dos creados, em bom aprumo, envergando a casaca bem assente.

Laura sentia então um suave contentamento que lhe dava uma expressão de felicidade; via ali uma reproducção fiel do viver de seus paes, toda a sua vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha dizer que os seus serões já tinham fama de elegantes na cidade.