—Até certo ponto... respondeu o medico. Mas lá isso, diga-se com franqueza, não sei o que é o cuidado das mães! As creanças parece que medram só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as amas, sempre são madrastas.

Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava pela vinda d'uma ama. Era uma necessidade. Só se Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher tisica!...

Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. Não houve razões, nem instancias, nem um confessado desgosto e pezar que pozessem barreiras ao egoismo de Laura e a levassem a ceder aos desejos do marido. E Claudio via com espanto, que em breve se transformaria em aversão, o filho entregue a braços estranhos.

Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria Francisca veiu discutil-o com a filha e por deferencia que ella julgava um requinte de delicadeza, quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com Laura o caracter da festa e o numero dos convidados, baptisado ás cinco horas da tarde, jantar em seguida e depois uma pequena reunião dos intimos. Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava e a disposição dos moveis não era adequada á dança. Fica assim uma reunião mais escolhida, concluia ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da casa, escusamos de convidar os gebos que não sabem vestir uma casaca e não vêm ahi senão para comer.

Claudio não concordava; não queria festa alguma. O baptisado, dizia, é um sacramento e deve ser dado com a placidez e o recolhimento de quem tem consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.

—Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de julgar que cairam em miseria ou que tem muito pouco gosto em ter um filho. Nada, nada, deixemo-nos de excentricidades, vamos andando assim, que foi sempre o costume cá de casa. Que diria o Claudio se visse o baptisado do José?!... Durante oito dias tivemos em casa vinte e sete hospedes! O conde de Palhares, que veiu cá de propósito, disse-me que os bailes do Farrobo não tinham mais grandeza.

—Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é muito bom rapaz mas ha de ressentir-se sempre d'aquella vida na aldeia.

—Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com isso...

A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.

Tomando por singela obediencia as complacencias com que até então Claudio se tinha sujeitado aos habitos e vicios da mulher, D. Maria Francisca, que as ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham convencido de que todo o dominio lhe pertencia, começava agora a mandar em casa da filha como em sua propria. Por isso, passando de leve sobre as observações do genro, dispoz tudo para o baptisado conforme o desejava.