Laura soffria apenas uma crise passageira; em breves dias havia de operar-se a transformação milagrosa do ser frivolo e egoista na esposa e mãe profundamente generosa, consagrada com uma intima felicidade, á existencia alheia.

Essa transformação porém não vinha. Deccorriam os dias, as forças voltavam, e Laura continuamente se lamentava. Não podia dormir uma hora descançada! dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada a entrar-lhe no quarto a cada instante, para que désse de mamar á creança!

D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia animalidade da sua robustez comprazia-se nas suavissimas caricias da amamentação; o calor das creanças junto aos seios em que pousavam as pequeninas mãos, comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para ella um instinctivo prazer, desprendido de quaesquer razões moraes. Para a filha, porém, era differente. A filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por isso, ouvindo os queixumes de Laura, invariavelmente lhe dizia:

—Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito fraca...

—Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...

—Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer o que o medico lhe disser. Pensas que os maridos gostam muito de vêr as mulheres magras e velhas antes de tempo?

Interrogaram o medico, na presença de Claudio. O medico respondeu:

—Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos é conforme a vontade de cada um. Quando se tem n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas forças, e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...

—O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio que a conversação contrariava extremamente, é como uma mulher tem forças para crear um filho no ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo sadio e forte, e não não tem forças para em seguida o amamentar durante um anno. Muita gente devia morrer entre os pobres que não tivessem para pagar a quem lhe creasse os filhos!

—Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar porque creei os meus... Quem não tem outro remedio, ou seja forte ou fraca, cria os filhos; mas quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz muito mal. Nem mesmo ás creanças é util. Pois se ellas podem ter um leite bom para que hão de estar a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?