Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra e o campo brilhava todo aljofrado de gottas de agua.

Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras que a enleiavam e olhou procurando um carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam todos os caminhos.

Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se para a colher. Reparou então que eram muitas estendendo-se pela beira do caminho, rompendo por meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra das acelgas.

Instinctivamente, começou a limpar o chão das plantas parasitas, primeiro devagarinho, com medo de se sujar e de se picar nas ortigas, depois affoitamente, sentindo um prazer estranho em afundar os dedos na terra. As violetas iam surgindo e, assim libertas, pareciam grandes e bastas.

Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim não podia mais, todo o corpo mortificado pela posição em que estivéra, abaixado. Levantou-se, contemplou com alegria os poucos palmos de terra que tinha limpo, e, para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, enlameando-se, sem receio, procurando as plantas que tinham resistido ao abandono.

No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho, á tarde, depois de ter recebido os clientes. Antes de sair, voltou a vêr as violetas. Abaixou-se novamente, teve tentações de continuar, mas não podia mais, os membros entorpecidos.

—Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.

Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação. Apetecia-os com frenesi.

Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao campo. Trazia a ferramenta, o sacho, a thesoura e a navalha, para poder repousar d'um em outro trabalho. Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo dorido ainda do exercido da vespera. Começou a sachar um alegrete, mas o serviço ia mal feito, deixava escapar algumas hervas e a terra ficava aos montes, mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava a apertar pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, mas a mão tremia-lhe, o córte era incerto, mal rematado.

Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada pelos vendavaes do inverno. Que infelicidade a sua! Quanto desejava, tudo lhe era vedado. Não poder trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!... Seria a salvação. Affluiam as lembranças da mocidade, o prazer de cuidar das suas flores que a mãe vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo ainda, as forças voltariam com o uso.