Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal, não tinha coragem de resistir. Era no seu espirito uma instantanea resurreição de qualquer cousa sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.

De resto, as horas que passava com os arrendatarios, com os devedores e com os creados que vinham receber ordens e dar contas das suas obrigações, eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. As riquezas do mundo encerravam-se em algumas medidas de pão guardadas na arca, em meia duzia de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto o rebanho vae traçando o pasto, e tecido nos serões de inverno á minguada luz d'uma candeia.

Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás o pão com o suor do teu rosto», é tudo, um evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o sustento que ella nunca recusa ao teu suor, não contes os teus passos, nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha sempre, para ti, para os filhos, para os visinhos, para os viandantes que passam no caminho; não penses para que nem para quem, os necessitados te virão buscar o pão, como nas horas de miseria tu irás tambem viver do trabalho alheio.

A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam e nada pretendiam ensinar. De tanto estudo e ambição, de todas as suas cogitações e de todos os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli correctivo.

Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera n'essa noite em que, creança ainda, pela primeira vez deixára Villalva para ir buscar riqueza e saber que tão cedo se converteriam em infortunio, e a ideia da morte voltava como a unica redempção.

Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia que crimes eram os seus para que assim fosse abandonada, que todos a estimavam e adoravam, menos elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o pois ella, se por alguma cousa peccava, era pelo muito amor que lhe tinha. O que diriam, perguntava, todas aquellas pessoas com quem convivia ao saber que Claudio desertara a sua casa quasi completamente? Por certo haviam de o condemnar.

No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação do que Claudio por demais conhecia, a vaidade da mulher, a crença nos seus merecimentos alimentada pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma vontade insaciavel, absorvente, de ser senhora de todas as acções do marido.

Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um objecto que era seu, para seu uso e regalo e não para viver para elle, sacrificando-se. Confirmando a sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar das suas cogitações podesse surgir.

Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao campo em que empregára tantos cuidados quando habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes dos amores de Emilia em que julgára ter alcançado a felicidade. Com que risonha esperança alli se sentára em mornos crepusculos do estio e em que desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua culpa!

Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No seu proprio abandono havia uma belleza consoladora; os jacinthos que brotavam entre a herva, as roseiras que se perdiam nos ramos das larangeiras, todo esse desalinho da natureza a que era estranha a mão do homem, cantava a vida ingenua e simples em emanações de viço e de frescura.