Como supportára até então essa cruz, porque não fugira ha mais tempo do logar em que um tormento incessante o perseguia? Não tinham sido as esperanças de emenda da parte de Laura que o tinham contido. Essas perdera-as por completo quando o filho nascera; a mesquinhez da sua alma revelára-se então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma arreigada convicção que, de resto, os factos quotidianos confirmavam tenazmente.
Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se, n'um exame da propria consciencia, que só por amor de sua velha mãe occultára a sua desgraça tentando deixar-lhe sempre a impressão de que vivia feliz. Sim, só por ella bebera corajosamente esse calix sem trepidar, sem uma apparente contracção, para que a tristeza não perturbasse a sua velhice e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade de quem louva a Deus por ter abençoado de felicidade a sua próle.
Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço que o ligava á terra! Aquelles cyprestes que além oscilavam ao vento junto á egreja, tinham agora para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos não se desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores, fitando os tumulos, buscando a revelação do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre. Para Laura, sua esposa? Era alheia ao seu coração e, ámanhã, quando o tivessem lançado ali ao pé de sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria, em carruagem, a fazer mesuras lacrimosas por casa dos parentes fidalgos, e bateria nos creados quando errassem e em accessos de ira expulsaria os mendigos do jardim.
Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante a imagem d'essa dôr mentirosa, ávida da vida, d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do mundo crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada podia esperar d'elle. Havia de crescer ao sabor dos caprichos da mãe. Já uma atmosphera de louvores e constante lisonja começava a tornal-o enfadonho e falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de regalos, a perversão mostrar se-ia completa. Melhor seria livrar a tempo os seus olhos d'essa imagem em que veria incessantemente a miseria do seu destino. Viver para os estranhos, para os desconhecidos, para uma vida de caridade, enxugando lagrimas, agasalhando os indigentes, levando consolo aos desventurados? Era tarde! Toda a energia estava extincta, consumida na propria desventura. Viver para os prazeres do corpo, lançando para longe todas as preoccupações moraes, despindo-se affoitamente d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando a casa da estrada da Beira sob a impertinente insolencia da mulher, sentira os impetos d'uma reacção naturalista que o vigor dos annos atiçava mas de todas as tentações logo accordava pela lembrança dos tormentos passados em Albergaria da Serra nos tristes annos dos amores de Emilia e pela perseguição de invenciveis espectros da consciencia em que as aspirações de virtude se confundiam com a imagem da sua mãe, no intimo sempre presente.
Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, privada de todas as alegrias que ambicionára, continuamente retalhada de dôres? Tivesse a coragem de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. Para que servia n'este mundo? O pão que o alimentava queimava-lhe os labios como um roubo ao trabalho dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio não seria um crime nem uma deserção, era uma obra de caridade livrando a humanidade d'um ser enfermo e esteril, era um acto de justiça, reconhecendo e castigando o desvairamento da sua existencia perdida em sonhos vãos e agora sacrificada á frivolidade d'uma mulher. Uma pesada sombra lhe escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo eternamente mysterioso como o mar calmo em que precisava lançar-se para seu repouso, para sua gloria, para sua redempção.
N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã, desde que fallecera a mãe de Claudio, a casa de Villalva era invariavelmente visitada pelos devedores, pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella dependiam.
Vinham regular as suas contas, pedir perdão das dividas em atrazo ou que lhes esperassem pelo pagamento das rendas caidas, saber se poderiam contar com as terras, o que seria de futuro, a quem pertenceriam.
Era gente rude, vestida de burel, mostrando no peito uma camisa grosseira, de grandes e toscas botifarras, muitas vezes descalça, tendo deixado á entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres vinham tambem; por homenagem ao novo senhor traziam-lhe aves que iam levar a cosinha, em pequenas cestas.
—Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam gemendo para que Claudio ouvisse e se compadecesse da sua pobreza.
Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, começavam a falar dos seus males, este dos gados que lhe morreram, aquelle das doenças que houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos maus preços. Terminavam pedindo alguma cousa. Por alma da senhora sua mãe... rematavam.