Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas de gente fina que vinha trazer-lhe consolações banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras vezes.
Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas e regular os seus negocios, mas a verdade é que queria estar só com as suas saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria concentrar-se na meditação, tentar descobrir e vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças, desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caça. Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.
VI
Villalva! O silencio e a paz no contacto da natureza, a absorpção no seu caudaloso palpitar, o arrebatamento nas suas emanações purificantes! Perante a cintura de montanhas que lhe cerravam o horisonte, lançando os olhos pelo valle em que os casaes dormiam escondidos no arvoredo ou debruçados á beira dos campos vicejantes, Claudio sentia uma vaga aspiração, um desejo obscuro cortado de saudades traduzindo-se n'um pullular de interrogações que opprimiam. Onde estava? Por que agrestes caminhos tinha andado? Onde ia? O que queria?
Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros risos e as suas primeiras lagrimas, perante o vulto sagrado da mãe, agora sempre presente aos seus olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer, na exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia a sua existencia, recordando factos, buscando ainda, com uma tenacidade de naufrago, esperanças de salvação.
O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas sobre a situação a que chegára, a historia da sua vida era um livro aberto em que não ficava o mais breve enigma nem a mais passageira obscuridade. Recordava os annos da infancia e mocidade, o respeito pelo trabalho e pela humildade de que seus paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo ininterrompido, via como depois surgira a tentação accendida pelas fascinações da sciencia materialista e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com angustia a tortura em que o lançára o tormentoso desvairamento do adulterio.
Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda sobre a significação moral da vida elegante, confundindo o luxo e a arte, a delicadeza do espirito e os cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia fidalga sonhando a alliança d'uma simplicidade christã com os requintes artisticos e os gozos e as commodidades da gente fina.
Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido dolorosamente e profundamente. Encontrara um egoismo sem limites, occultando-se em palavras doces e sorrisos convencionaes, onde esperava uma alma aberta á sympathia, ao amor e ao sacrificio; encontrára uma inconsciente crueldade onde phantasiára uma perenne bondade e denguices sentimentaes no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora tudo estava perdido, sem remedio.
Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor de recomeçar a sua vida; ligado pelo casamento seria arrastado na sua desgraça sem remissão. Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, os continuados motivos de desgosto que ella lhe dava e que por constantes definiam a sua vida normal; os ralhos e a odienta brutalidade com os creados, a aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação e essa avidez feroz com que reclamava o marido só para os seus prazeres, para os seus vicios e para as suas futilidades fidalgas, não lhe permittindo um momento de liberdade, não lhe concedendo, n'uma hora de bondoso desprendimento, que vivesse para si, para os seus trabalhos, para o seu repouso, ou, mais singelamente ainda, para as suas meditações.
Na verdade, não tivera com Laura um só acto de violencia, não podia dizer quando começára esse sentimento indefinido que o fazia temer a sua presença e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por isso a dissolução era menos completa; infiltrára-se-lhe na alma, subtilmente, impregnando-a dia a dia mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do fél que trasbordava jorrando um sombrio desespero.