O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.

Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os animára com o seu alento e que lhes legava a eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.

Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas, tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito, mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam o crucifixo, em cima da commoda, convertida em altar.

Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos que vinham com palavras de sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.

Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.

—Vae vel-a, disse para a mulher.

Na confusão do seu espirito perpassou a esperança d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.

Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo parecia dormir.

No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas commodidades. Sabia que ella não podia estar contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presença perturbava-o.

Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu espirito era completa, tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra, lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á irmã e partiu.