—Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração, tinha aquelle genio... Para os desmazelados era todo imperioso, mas para quem lhe andasse direitinho era bom, gostava de os ajudar. A mim, era elle mesmo que ás vezes me dizia: Porque não compras mais uma junta de bezerros? Tens ahi tanto pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o alli, áquella arca da sala onde a sr.a sua mãe, Deus lhe perdoe, guardava as arrecadas e o cordão. Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. O Julio morreu mais cedo, era um rapagão! tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado. Mettia dó. Mas emfim... Deus Nosso Senhor assim o quiz.

Entretanto a rapariga passava levando para a ceia a hortaliça lavada na ribeira; accendia a candeia, e começava a cortal-a num alguidar, sobre a meza. A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra, em que a agua já fervia.

Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração em que se envolvia a tristeza da sua vida desbaratada.

Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse já alto e a fadiga o prostrasse, procurando a sombra, sentou-se junto a uma oliveira, ao pé da cancella, enxugando o suor.

Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, descalça, o pé comprido e magro, erguendo os braços a amparar o açafate que trazia á cabeça, cruzado no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.

—Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse ella avistando Claudio. Isso até é peccado andar assim a cançar-se sem precisão...

Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á rapariga, embaraçado, como desculpando-se, attentou na sua belleza.

Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e assim de pé, sorrindo, os braços erguidos, lembrava uma estatua antiga, d'estas em que cristalisa o ideal feminino d'um povo inteiro.

—Que linda me pareces! exclamou depois de ter procurado justificar-se das suas fadigas que Maria tanto estranhava.