—Eu! Linda!...
E riu-se.
—Mal diria que havias de ser bonita quando estava em Albergaria e vinha aqui ás tardes. Ainda me lembro bem!... A maior parte das vezes encontrava-te a guardares as ovelhas com o cesto da meia no braço e o fio d'algodão preso no hombro. Agora estás uma moçoila que os rapazes hão-de cubiçar.
—Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada e ao mesmo tempo envergonhada com o elogio, contorcendo-se timidamente.
E seguiu ladeira acima.
D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á rapariga. Prolongava a conversa, á noite, com o pae d'ella para a vêr risonha e deligente a cuidar da casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á cancella do seu campo. Não trocavam palavras de amor; elle interrogando-a sobre o seu viver, sobre as suas ambições e os seus prazeres, procurando penetrar a sua alma, ella respondendo laconica, com um inalteravel sorriso em que revelava meigamente a sua sympathia.
Claudio, reflectindo na attracção que sentia por Maria, tentava convencer-se, a poder de logica, de que não tinha tomado novos amores. Era um symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava a suprema sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a com um fervor intimo, agradecendo-lhe a revelação d'esse mundo de paz e de felicidade. Não passaria d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; queria coroar pela castidade esse novo culto.
Maria tinha um campo proximo áquelle em que Claudio trabalhava e onde elle, na impaciencia de a vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde a conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou na estrada um rapaz ligeiro e agil, com um vigor de mocidade que ao primeiro olhar se mostrava. Ella, vendo-o, disse para Claudio:
—São horas. Vou-me até casa.
E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao lado.