Interiormente, quasi estava contente. Estes amores que terminavam sem macula engrandeciam-se aos seus olhos por este facto: a abdicação de todos os seus desejos em proveito da felicidade de Maria coroava d'uma maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.

Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, n'um amor sublimado. Iria a Coimbra, soffreria a tortura de viver ali durante um ou dois mezes e, quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se de Maria. De longe, silenciosamente, faria sua a alegria da sua amada onde a encontrasse, ou cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo a roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.

Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes aos creados os gados, as aves e as plantas. Iam sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas flores que careciam de regas mais frequentes, a hora a que convinha levar o gado ao pasto.

Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros da sua vida. Aquelles sim, aquelles nunca lhe mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas, prosperando e prodigalisando os fructos, derramando em torno a abundancia e a belleza.

Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados. Procurava bastas vezes vencer pelo movimento e pelo cansaço a agitação do espirito; por experiencia sabia quanto o silencio e a contemplação da natureza lhe eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam communicar-lhe uma parcella da sua serenidade.

Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto com grande estranheza. Não que elle tivesse deixado completamente de lá ir mas, sempre que o fazia, a sua vinda era previamente conhecida pelo facto de mandar ir a carruagem a Villalva... D'ordinario, demorava-se um ou dois dias dando solução aos negocios da casa e entregando pontualmente á mulher todos os rendimentos. Ficára assente pelo simples uso, sem qualquer declaração formal, que os rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, que d'elles dispunha como queria, e para elle só reservaria os bens de Villalva.

De resto, Claudio supportava este encargo de visitar e administrar a casa sem maior contrariedade apparente. Transpondo o portão da estrada da Beira era outro; envergava os trajos da gente da cidade e com elles rehavia antigos habitos de polidez e de delicadeza mundana. Ás vezes, parecia mesmo contente; a certeza de que dentro em pouco voltaria ao seu casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe tolerar resignadamente, porventura bondosamente, os costumes que no intimo condemnava e aborrecia. Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando alguem tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas suas lavouras, respondia com um laconismo que cortava todo o seguimento da conversa.

Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito discutido. Em geral, julgavam-n'o um maniaco. Laura e D. Maria Francisca tinham-n'o por um homem brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; o abandono da mulher e do filho, que aliás viviam na abundancia e no luxo, pareciam-lhes um crime. Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára muito a liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe respeitassem a sua.

—Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. Está no seu direito! E tu, dizia para a mulher, não gostas de trazer plumas no chapéu e de jogar o whist? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado sempre muito bom rapaz... Traz ahi a Laura com todas as commodidades e ainda fallam d'elle!

A vida desregrada e a estreiteza de espirito não tinham pervertido o coração do fidalgo. Incapaz de uma bondade activa, conservava um constante pendor á indulgencia e tinha, como homem enfastiado do mundanismo, certa attracção para os caracteres que se desviavam dos typos consagrados. Por isso estimava o genro e o defendia.