Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em Villalva, quando nas caçadas se encaminhava para esses lados.
Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros que se estiravam na sala, offegantes, a lingua pendente e humida, ostentando a dentadura recurva e eburnea.
Claudio recebia-o com sincero contentamento e affagava a matilha cujas proezas D. Pedro logo começava a narrar.
D. Maria Francisca escandalisava-se com essas visitas que destoavam da sua attitude reservada com Claudio. Se por acaso acontecia que o marido dormisse em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo em companhia dos seus hospedes beirões, não deixava de o reprehender, escarnecendo.
—Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a esses palacios! Ha-de-se lá dormir muito bem e com muita limpeza!
—Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos assomos da mulher. O Manoel de Vasconcellos ainda agora me escreveu de Lisboa a chorar pela ceia que Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo de porco, assado no espeto, alli á lareira, nunca mais esquece.
No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra foi á noite a casa dos sogros.
A sua presença despertou grande curiosidade entre os convivas, que eram muitos. Todos o rodeavam, e muitos, estranhando a sua magreza, perguntavam se tinha passado mal ou soffrido qualquer doença.
—Não, tenho passado excellentemente, magnifico, mesmo muito vigoroso, respondia Claudio.
Na verdade, estava magro, os olhos encovados, as faces enrugadas. Illudia-se tomando por vigor a excitação em que o trabalho physico e a intensidade das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.