—Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam insistindo os que o cercavam.
—Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou alguem. Que diz o doutor?
Este doutor era um medico que ha pouco tinha tomado capello em medicina e se preparava para lente da Universidade.
Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes sobre doenças nervosas, escriptos em francez, julgava-se senhor de toda a sciencia e deixava perceber, sem abertamente o declarar, para não crear antipathias que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, que os lentes nada sabiam. Elle é que estava ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o consultassem, tomando a consulta como reconhecimento dos seus talentos, e fallava pausadamente, cathedraticamente.
—Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, hoje a sciencia tem feito grandes progressos que, digamos de passagem, são quasi completamente ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós, estuda-se muito pouco; com excepção de meia duzia de homens de verdadeiro talento e de saber, no geral cura-se por uns processos rotineiros de que a medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças nervosas conhece-se muito pouco... mesmo muito pouco! Quando ultimamente defendi theses, tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes. Convenci-me de que a materia era perfeita novidade para os meus collegas. N'um caso, por exemplo, como este do dr. Claudio, o que a sciencia aconselha é não só o exame de todo o organismo mas particularmente a observação das manifestações nervosas. É cousa que demanda um grande tacto... um grandis...simo tacto! Qualquer medico que o visse, naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes. Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se por ella. Seria um erro! O dr. Claudio diz-nos que se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com apparencias de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio entre a força organica e a actividade nervosa, que é necessario combater. Uma vida tranquilla e particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo da quietação é o que hoje se recommenda n'estes casos. O mar em caso algum; a sua agitação é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio ganharia muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.
—Não digo que não, meu caro doutor, respondeu Claudio disfarçando mal um sorriso, mas nem sempre se pódem tomar remedios... tão energicos. São, ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto grau. Da algibeira, é claro.
—Sim... mas nas circunstancias de v. ex.a isso não é motivo.
—Eu não digo que rejeite por completo o tratamento, mas tomo-o em dóse mais moderada. Uma digressão pelo Minho será o bastante.
—Mas creia v. ex.a que isso não lhe dá resultado. O que tem desacreditado muitas vezes a therapeutica moderna é deixarem de a seguir com todo o rigor que a sciencia aconselha.
Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando o conselho, porque lhe convinha. Já antes tinha pensado que a permanencia em Coimbra não podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de Laura, de que nem o abandono do marido a curara, os serões em casa dos Albuquerques, toda a rede de impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter da vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. Precisava fugir d'alli.