Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi, por Montalegre e Chaves, desceria ao Douro para o atravessar e passar á provincia da Beira Alta d'onde voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o amor o trazia.
Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva inteiramente de posse da sua vontade que empregaria com firmeza em evitar quanto podesse levantar a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. Ia pôr-se a caminho.
Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e fria. Vinha rompendo o dia. No rio a nevoa e as aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam e retemperavam como deuses pagãos, em ondas claras.
Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão da vida ingenua, era o fructo prohibido dos seus anceios, uma recordação amarga.
Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas e pelos valles estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas pela alvorada que se espraiava empallidecendo o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as cupulas dominando e protegendo os tectos negros que, afundando-se pelas quebradas, rastejavam em torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora magestosos, ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas lagrimas, quanta tortura e miseria despertavam com a manhã d'aquella massa obscura! Um sentimento de piedade lhe apertou o coração, e logo o remorso começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem elle era criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, tambem elle ateiara com os seus desvarios o fogo das paixões que alimentam a miseria!
Porque saira de Villalva, porque não ficára ali como seus paes modesto e ignorado? Talvez... talvez... Uma suspeita lhe passava pelo espirito... Talvez então vivesse contente com Maria, no seu casal abençoado e fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade ignorada que só em sonhos sentira!
Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle ahi regressaria. Levava comsigo a saudade da vida que jámais o abandonaria e que agora se personificara poeticamente na lembrança de Maria.
Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. Ficára-lhe d'aquellas terras uma boa recordação. A belleza das mulheres, altas, d'um raro concerto de majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem viçosa e ampla, em que a luz se attenua e pulverisa sobre as aguas extensas e na atmosphera humida, os costumes, a liberdade sem altivez do povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava a voltar a Aveiro.
Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. Dava-lhe agora uma impressão de silencio, de calma, de desolação que provocava a tristeza. O movimento nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, com os seus ruidos caracteristos, muito poucas. Enganára-se; não era aquillo que tinha na memoria.
Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos levando os pescadores para a ria e os marnotos para as salinas; a jarra da agua, o cesto com o almoço e o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita onde se abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a a companheira da sua vida; voltariam á tarde, a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho durante o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos do mar e aos ardores d'um abrazado estio. Tambem assim era em Villalva, tambem áquella hora Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e pela serra aspera.