A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava deserta, era o animo que faltava ao seu coração. Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava em torno, constantemente voltados para uma imagem interior.
Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da viagem. Seria inutil. Ia proseguir, mas adivinhára já o que o esperava. Toda a terra lhe parecia arida e silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que lhe recordasse a existencia de Maria.
Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado, aos primeiros reverberos das estrellas, passeiava á beira do rio e, como se sentisse fatigado, encostou-se sobre um rochedo e adormeceu. Um vento agreste batia as cumiadas dos montes, açoitando as arvores que se curvavam desgrenhadas, mas no valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. Claudio aproveitava o favôr da natureza e no torpor que precedia o somno fixava os olhos com gratidão n'este espectaculo de feliz remanso.
Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se ás palpitações da natureza. O rio transfomára-se em alvas nuvens que pousavam sobre o seu leito apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como uma apparição, em meio d'um nimbo de claridade vermelha e candente, uma cosinha pobre e uma rapariga curvada sobre a lareira ateando o lume que se erguia em labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se as lufadas do vento mordendo as cearas que ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil cubiçava o calor vivificante que irradiava do facho luminoso.
Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos Casaes quando ha muitos annos vinha com Emilia de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que o cercava. Corre-se a aquecer-se ao fogo redemptor da simplicidade que a imaginação sobrexcitada lhe mostrava n'um quadro tentador.
O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para que ir mais longe? Em vão! em vão!... Mais uma vez repetia estas palavras com que tão dolorosamente terminara tanta illusão da sua vida.
Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de ausencia, vencido pela saudade. Vinha na persuasão de que o trabalho na lavoura e a simples presença de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava de fallar-lhe, não precisava d'essas arrastadas conversas á beira da estrada que os estranhos viram com suspeição. Não estava ella divinisada no culto que o seu coração lhe consagrava? Uma adoração muda e casta bastaria a satisfazel-o.
A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de familia disse que se apressara a voltar porque se sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia muito que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam, seguiu immediatamente para Villalva onde chegou noite cerrada.
Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, dando-lhe conta do estado dos gados, das sementeiras, de tudo o que succedera n'aquella pacifica solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou os estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.
Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria, julgava-se victorioso e começava a sentir, penetrado de delicias, a realisação dos seus sonhos de castidade.