Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a aldeia recolhida no valle apertado. Tudo dormia. Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em inquietações d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura tel-o-ia esquecido?... Fixava os astros, escutava as auras da noite procurando o segredo da sua vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de fadiga.

—Amanhã, amanhã!...

N'esta risonha esperança adormecia tambem.

Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que Maria apparecesse tangendo o burro que conduzia a moenda. Ao vêl-a sentiu como uma vertigem em que o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria. Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á noite, muito tarde, junto ao muro da eira, quando ninguem os visse.

Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento e um vigor desusados. Estranhava as suas forças. Como acontecia que, depois de tanto tempo de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação em que o deixava a certeza do amor de Maria, illudia-se; tomava como um triumpho do seu corpo o que era apenas uma passageira febre.

Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em casa; fazia-o frequentes vezes para acalmar a inquietação do espirito.

Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao muro. Sentiu-se um ligeiro bulicio de folhas seccas. Era ella que se aproximava pisando descalça a caruma que cobria a eira.

Claudio começou então a contar o que soffrera na jornada, como os dias lhe pareciam longos, como em toda a parte via a imagem de Maria.

—Não sei viver sem ti. Sou tão infeliz que preciso da tua voz para me dar animo.

Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura e não podesse avaliar na physionomia a impressão das suas palavras, perguntou-lhe: