—E tu? tambem tinhas saudades minhas?

—Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.

O incendio estava lançado. Vieram as confissões d'affecto em serões prolongados pela noite calma, as caricias, as tentações e os impetos d'amor. Essa castidade no contacto da natureza e na adoração das cousas simples que Claudio sonhára, doente do affastamento e da saudade de Maria, voava desfeita como todas as bastas illusões da sua vida.

A simplicidade é vigorosa e sadia, e o vigor é naturalista. A luz do sol e toda a terra cantam o amor fecundo.

Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia o solo lançando-lhe a semente, era uma forma de fecundação, a anciedade de crear e multiplicar as formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia com o desejo da sua amada.

Uma noite adormeceu no regaço da sua amada; ella, cariciosamente, consentiu-o. Dormiu um somno breve, povoado de enlevos amorosos e acordou n'um arrebatamento de paixão em que toda a pureza angelica cedeu ao sangue encandecido.

Não se passou muito tempo sem que Maria apparecesse com o rosto desbotado, os olhos cavados, toda alquebrada d'uma desconhecida molleza. Adoecia das primeiras perturbações de gravidez.

Chorando, confessou á mãe a sua desgraça.

—Que fizeste, que fizeste?! exclamava a mãe chorando tambem. Que vergonha a nossa!

Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua ambição. Estava finalmente livre de todas as convenções com que tinha rompido, inconscientemente, levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter filhos que elle saberia guardar das tentações mundanas, guiando-os a uma existencia de simplicidade. D'esta vez a felicidade era segura e certa.