—É a Conceição, filha do Manuel da Aveleda. Olhe, cuide-me d'aquillo, cuide-me d'aquillo que está no seu tempo, accrescentou o boticario. A minha pena é não lhe poder ser bom.
E distraidamente fez avançar a sua «dama».
Claudio ficára profundamente impressionado com a graça e a meiguice da rapariga, um modelo de mocidade e de doçura. Nos dias seguintes, vinha, como de costume, á botica, e ao entardecer não tirava os olhos da estrada, do lado de Villar, onde ella morava.
Ella passava sempre, ora só, sizuda e apressada, ora com as companheiras, rindo e parando a cada passo.
Já tinha percebido que o estudante a fitava; uma vez mesmo, ao voltar a esquina, para assegurar o seu juizo, olhára para traz. Não se enganava: elle lá estava, á porta, fitando-a sempre. Chegára até a dizel-o a uma das companheiras.
—Vês aquelle rapaz, o filho do José Portugal, de Villalva? disse-lhe. Quando eu passo, olha muito para mim.
—É bem rico, quem dera! respondeu a companheira.
Calaram-se. A Conceição não adiantou conversa, um pouco arrependida da indiscrição. Gostava d'elle, e, se ia só, ao passar em frente da botica, punha os olhos no chão e os passos embaraçavam-se-lhe.
Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embaraço. Que fazer? Seguil-a? Mas ella não olhava para elle; a imaginação representava-lhe a resposta avessa com que seria repellido e o golpe que o seu coração soffreria. Depois, seria uma troça do boticario, do administrador, do escrivão... e elle gostava d'ella, não podia consentir gracejos sobre uma cousa em que o seu coração era parte. Escrever-lhe? Responderia ella? Estavamos no mesmo caso. Ia rir-se com as companheiras e d'ahi a dois dias andaria a carta em todas as mãos. Ainda era peior do que fallar-lhe.
Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou no jardim para lh'a offerecer. Em logar de ir á botica, passearia e encontral a-ia em baixo, fóra da villa; ahi ninguem o via, o caminho é deserto, e fosse o que fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.