Começava a comprehender o novo mundo: a creação foi uma fabula que a ignorancia inventou, os seres transformavam-se, e a pedra, a rosa, a salamandra e o homem eram formas d'uma mesma actividade, producto apenas de leis constantes e universaes; no mundo tudo é rigorosamente derivado d'um estado anterior, a flôr é uma folha que se transforma. Por conseguinte, o que é bem e o que é mal? Tudo é relativo, diziam os novos evangelhos, não ha bem nem mal, o assassino e o santo são dois productos naturaes do mesmo quilate.

Era n'esta crença que aos dezoito annos Claudio regressava a Villalva, satisfeito com os progressos do seu espirito, occultando porém á mãe o seu modo de pensar, resolvido a supportar a sua religião. No fundo, não tinha mudado; só uma ingenuidade infantil lhe fazia crêr que estava regenerado e lhe deixava passar ignorada a contradição interior. Não só todo o seu trabalho provinha d'uma ambição de verdade que não aprendera nos livros que estudava mas que tinha sido previamente lançada no seu coração pelo amor e pela piedade maternal, mas ainda todos os actos da sua vida lhe negavam as affirmações do espirito.

Não o via; o desenvolvimento da consciencia não era ainda sufficiente para lh'o revelar. Sem embargo, a contradição era completa.

Que o digam os seus primeiros amores que foram d'esse tempo.

Á tarde, Claudio descia de Villalva; vinha á botica da villa, em frente da praça, ouvir os ociosos que por alli paravam e ensinar-lhes politica. Que eram o Fontes e o Braamcamp? Idiotas! Sabiam porventura alguma cousa?! Nem sequer conheciam os grandes livros modernos em que se aprendia a sciencia social.

O administrador escandalisava-se com a petulancia do rapaz.

—Era para isto, dizia, que os mandavam a Coimbra e que o pae e o tio tinham andado toda a vida a trabalhar. Se elles lhe tivessem mettido uma enxada nas mãos, seria bem melhor.

Claudio ouvia as reflexões do administrador que só confirmavam a sua vaidade. Uns estupidos, uns brutos! Elle é que sabia.

Foi n'uma d'essas tardes, emquanto passeava d'um ao outro extremo da sala, em frente do boticario a jogar as damas com o recebedor, que, n'um momento em que assomou á porta, viu passar uma rapariga loira, alta, reforçada e agil, cantaro á cabeça, a caminho da fonte.

—Quem é? perguntou ao boticario. Que linda cousa!