Vingava-se, desprezando o que a fortuna lhe negára.
Não o comprehendeu assim Claudio, na sua simplicidade; tomando por generosidade e desinteresse o despeito do pae, commovido, pediu-lhe para que continuasse a cuidar dos bens da herança. Nada queria senão a mezada que já tinha; vivia satisfeito.
O pae recusava, mas os rogos e as instancias acabaram por convencel-o. Cedeu, talvez contente; julgava o filho humilhado e a humilhação pagava-lhe em grande parte o despeito de não ter sido herdeiro.
Não obstante as circumstancias muito particulares em que Claudio ficava vivendo, em completa e espontanea dependencia do pae, a herança que acabava de receber tinha, desde já, na sua vida a mais poderosa influencia. Affastava de vez todas as preoccupações de ordem material, garantia-lhe de futuro uma riqueza que era de sobra para os seus modestos habitos; a salutar necessidade de ganhar pelo seu braço e pelo seu engenho o pão de cada dia ser-lhe-ia desconhecida.
A sua carreira estava traçada pelas condições particulares da existencia que agora se reuniam ás lições que aprendera no regaço da mãe. A vida era uma obrigação de fazer bem. Simplesmente restava determinar o que era o bem.
Nas poucas relações que em Coimbra creára, veio encontrar uma atmosphera absolutamente differente da que deixára no collegio.
Deus não existia, era uma invenção do mêdo, conservada pelos reis e pelos padres que especulavam com a crendice popular. Onde estavam as provas da sua existencia?
O positivismo, unica sã philosophia, mandava que só na observação e na experiencia nos fiassemos. Só o que d'ahi vinha era certo, o resto ficava ao sabor de cada um. Não era pois verdade o que os padres e a mãe lhe tinham ensinado.
Deixou-se levar n'esta nova corrente. Obedecendo a uma sêde interior de verdade, ouvia e meditava o que os camaradas estudiosos lhe diziam e lia com avidez as obras que elles lhe indicavam.
De lições escolares pouco cuidava, que os lentes eram uns velhos estupidos e ignorantes, do novo methodo nada sabiam. Buchner, Spenser, Comte, Littré, Darwin, Taine e Haeckel, esses eram verdadeiros mestres. Era lêl-os, estudal-os, e ficava-se senhor de toda a verdade. A «Historia da creação», de Ernesto Haeckel, foi para Claudio uma revelação. Estudou-a, linha a linha, em frigidas noites de inverno, debruçado sobre a banca de cerejeira, mettido em cobertores de papa, á luz frouxa do candieiro d'azeite.