—Agora estou bem, graças a Deus. Muito cansada.

A fé de Claudio tinha n'este momento confirmação plena; no seu coração estavam lançadas sementes que o tempo podia transformar, mas nunca anniquilar.

Estes dois mezes de férias em Villalva foram para Claudio um começo de revelação consciente da felicidade d'aquelles logares. Ao chegar a noite da partida, não poude, como da primeira vez, vêr distrahidamente os cuidados da mãe e adormecer; foi uma noite de lagrimas e de saudade confessada. Ainda tres dias depois, no collegio, a um canto da sala de estudo, tinha uma nova crise de lagrimas. Um dos mestres passou n'esse momento. Vendo-o a chorar e adivinhando o que se passava no espirito da creança, disse-lhe compassivamente:

—Deixe os livros, deixe os livros, vá brincar.

As saudades não turvavam porém a applicação do collegial. Pelo contrario, o desejo de voltar a Villalva triumphante, como no primeiro anno, a alegria dos paes e os carinhos que d'ahi vinham e de que a sua alma era tão avida, constituiam uma ambição sempre presente á sua lembrança e que o mantinha invariavelmente no mesmo caminho. Durante seis annos, que tantos foram os que consumiu n'estes estudos preparatorios, a sua vida manteve-se n'uma linha ininterrupta de respeito, de obediencia, de concentração, d'estudo e de fé. Se lhe fosse possivel fazer parar ali o desenvolvimento do seu espirito, teria ficado um alto exemplo de caracter e de firmeza. Mas outros destinos e outras amarguras lhe estavam reservados.

Aos desesseis annos matriculou-se na Universidade. O pae queria vel-o advogado; Claudio, como de costume, ia fazer-lhe a vontade.

A entrada na Universidade não desvanecia, antes accentuava, os caracteres da sua alma anteriormente adquiridos. Semelhantemente ao que lhe acontecera quando entrou no collegio, sentia-se por timidez e por natural pendor alheio a esta turba multa que o rodeiava, alegre, buliçosa, fremente de actividade e de pujança; a primeira e a nova situação eram rigorosamente parallelas, áparte um estado de consciencia agora mais determinado e em breve na sua plenitude. O mundo era para Claudio uma obrigação pesada e instante: alegrias, expansões sadias do naturalismo juvenil, tudo devia ser pautado e regrado pelo dever immanente. Desgraçado! Mal sabia elle a que abysmo corria.

No inverno immediato á sua entrada na Universidade, deu-se um acontecimento que havia de ter na sua vida as mais profundas consequencias. Morreu o abbade e instituiu-o universal herdeiro.

Deixava a quinta da Nogueira, propriedade afamada, inscripções e numerosas dividas activas, ao todo uns bons quarenta contos de réis, conforme o pae de Claudio lhe mandou dizer. Fôra elle que cuidára do inventario e liquidação da herança, visto que o filho era menor ainda, mas contrariado porque, dizia, estava habituado a cuidar os seus bens, não sabia cuidar de bens alheios, nunca fôra procurador. No fundo, não podia fugir a um vago ciume e inveja por se sentir, por aquelle lado, em grande inferioridade relativamente ao filho. Demais, sempre esperára que o irmão, embora muito inclinado ao sobrinho, o deixasse ao menos usufructuario; não podia tolerar sem tentações de revolta esta condição d'um subordinado que sabia que em breve seria independente de qualquer auctoridade. Por isso, quando Claudio veio passar o natal a Villalva, o pae, que desde a morte do tio nunca mais o vira porque evitava a occasião de o encontrar, addiando um momento que lhe era desagradavel, disse-lhe seccamente:

—Teu tio deixou-te tudo. Ora tu tens dezesseis annos e a lei dá-me o direito de administrar o que é teu até á tua maioridade; mas a minha tenção é emancipar-te aos dezoito annos. Se queres, toma já conta do que é teu; para mim é um descanço. Sabes muito bem o que tens a fazer, já não és nenhuma creança.