Mandaram chamar o medico.
—Era melhor chamar o padre, dizia ella; e a Maria, a filha. Mas não... a esta hora... coitada... ficam lá os pequenitos sós... ai! meu Deus... eu morro... morro... Estorcia-se, desgrenhada, os olhos em alvo, os braços nús, punhos cerrados.
Veiu o medico e receitou. Emquanto o creado corria á botica, preparavam um banho. Tudo faltava, agua e banheira. A confusão era extrema; a dôr não abrandava. Só cerca das dez horas chegaram os primeiros medicamentos.
Bateram onze horas. O mal não declinava. O pae de Claudio estava aterrado.
—Isto não melhora, dizia para o medico, fitando-o com olhos interrogadores e anciosos.
—Espere, espere... por emquanto ainda não é tarde. Então?! Não me esteja a desanimar. Parece que nunca viu ninguem com uma colica. Pois olhe que eu não tenho visto poucas e até hoje, graças a Deus, ainda nenhum doente me morreu d'isso.
Claudio fugira para longe; chorava mas não queria que o vissem chorar, temia o pae que por certo não deixaria de o reprehender pelas suas pieguices, como elle lhe chamava. Queria rezar. O oratorio era na sala e estava lá o medico. Abriu a porta de mansinho, atravessou o pateo e, seguindo o carreiro onde á tarde estivera com a mãe, foi ajoelhar-se lá no extremo, debaixo d'uma oliveira. A noite estava serena: o luar cobria os montes de que vinham as exhalações quentes que succedem ás calmas do estio. Ajoelhado, de mãos postas, fitando os astros, via a face da Virgem, sentada no seu throno de gloria, entre nuvens douradas. Orava e ella via-o:—Ave Maria, cheia de graça... Respondia-lhe um olhar de doçura e esperança. Quando voltou a casa, finda a oração, a mãe dormia extenuada e pallida.
Accordou á uma hora da noite. Ainda ali estava o medico.
—Então?! Está melhor? perguntou-lhe.