Com excepção d'estes breves incidentes, que jámais se apagariam da sua memoria, a vida do collegio foi para elle monotona e triste; timido no recreio, vivendo pouco intimamente com os companheiros, todo se entregava ao estudo. Os mestres estimavam-n'o. Um d'elles ficára pasmado do modo porque Claudio lêra um longo trecho de Garrett contando a pobreza de Camões. Não se conteve que não exclamasse:
—Muito bem! Torna a lêr para estes meninos ouvirem. Impressionava-o a emoção com que a creança lia e que provinha d'uma penetrante comprehensão das dôres que o poeta cantava.
No fim do anno eram os exames, em Braga, onde os pobres rapazes iam arrebanhados, pallidos, enfermos de desconforto, afflicções e receios. D'ahi dispersavam em férias, cada um para a sua aldeia.
Claudio veiu em companhia do padre Netto que em Coimbra o entregou ao pae a quem chamou de parte para lhe dar informações do filho. Ia muito bem; muito applicado e muito socegado; fizera só instrucção primaria e portuguez, mas no anno seguinte devia fazer exame de francez, de desenho e até talvez de geometria. O abbade estava satisfeito; já lhe tinha dito que se o rapaz assim continuasse, o melhor era mandal o para a Universidade. Sempre era outra cousa, outra posição, para que servia ser padre sabia-o elle, por mal dos seus peccados. Isto tudo aqui para nós, concluia; não se lhe póde dizer nada. Se a gente vae a gabal-os, fazem-se tolos e ninguem os atura.
O pae levou Claudio para Villalva. No caminho desceu um pouco da sua habitual frieza, perguntando ao filho o que fazia no collegio, se gostava d'isto, se não gostava d'aquillo, quantos eram os mestres e se lhe tinham dado muitas palmatoadas. Começava a respeital-o; o que o padre dissera, incendiava-o em ambições. Formado e com a fortuna do tio, a advogar, mandaria em Albergaria; via-o já presidente da camara, talvez deputado. O filho do Antonio Simões, de Barreiros, não era mais do que elle e estava em Lisboa nas côrtes, um fidalgo. Pois algumas vezes lhe tinha emprestado ás tres e quatro moedas para mandar a mezada ao rapaz! Agora era elle que mandava dinheiro ao pae; ainda ha poucos dias déra mais de sessenta moedas pelo Cerrado de Baixo, na Cruz das Almas.
Os primeiros dias de férias passados em Villalva foram uma festa para Claudio. Veiu a irmã e ella juntamente com a mãe, ambas contentes e orgulhosas, pedia-lhe a narração do que se passava no collegio, como era a jornada, os exames, o Porto, a cidade de Braga e o Bom Jesus do Monte. Quem lhes dera poder ir lá! Claudio, por seu lado, sentia uma nova atmosphera; ainda ha um anno esquecido, quasi abandonado, via-se agora cercado de attenções que eram novas para elle. Convertera-se n'uma esperança de riqueza e de poderio, lisongeava a ambição do pae, a vaidade da irmã e a piedade da mãe que tudo attribuia ás suas orações, ás esmolas que dava e á recompensa divina. O filho ouvia-a; com ella cria tambem que toda a sua sorte vinha da vontade de Deus, mas a edade e a alegria de voltar ao seu casal não o deixavam prender-se muito a esses pensamentos. Os seus cuidados eram a admiração das flôres que deixára plantadas, os gados, os campos e as colheitas. A sua vida consubstanciara-se cedo com a d'esse mundo natural que era o companheiro inseparavel da sua alma e do seu corpo.
Uma tarde, em setembro, a mãe começou a sentir uma pequena dôr no ventre. Foi continuando no trabalho, arrumando a cosinha e preparando a ceia, mas as dores repetiam-se cada vez mais frequentes e agudas; seguiam-se uns ligeiros suores e, depois d'uns instantes de abatimento, parecia-lhe que ia adormecer, concebia uma vaga esperança de cura. Eram simples remitencias; o mal estava apenas incipiente. N'uma crise, a mais violenta, chamou o filho:
—Claudio, estou muito mal. Tenho uma dôr aqui, e punha a mão sobre o ventre. Valha-me Nossa Senhora! Se eu désse um passeio, talvez me passasse.
Foram para o quintal e lá se arrastou pelo carreiro junto ao muro. Poucos passos deu. A dôr voltava, ella encostada ás arvores esperava que abrandasse para dar alguns passos. Por fim, não poude mais; veiu para a sua alcova. Era quasi noite e o marido recolhia.
—Não te quiz mandar chamar, disse-lhe, para te não tirar do trabalho... Ha duas horas que não páro... Não sei o que isto é... E torcia-se angustiada, os olhos cavados, as faces desfiguradas.